terça-feira, 19 de junho de 2007

Entre revolução e reforma

Sárközy apresentou-se como o ponta-de-lança de um processo de ruptura. "Revolução" seria um termo excessivo, que poderia tê-lo associado à revolução conservadora e que o teria colocado num paralelo ridículo com a revolução de 1968. "Reforma" era insuficiente para um candidato que procurava relegar para uma loja de antiguidades do século passado o reformismo dos seus adversários sociais-democratas. A solução era a ruptura. A ruptura é menos do que a revolução e mais do que a reforma: requer uma mudança das mentalidades. Para explicar a mudança que propunha, Sárközy tinha de definir a mentalidade a ultrapassar.
Uma vez que o seu território de eleição se encontra à direita, era mais cómodo para ele desenterrar na mitologia da esquerda o alvo da sua ruptura moral. Era essa a função do Maio de 1968 no discurso de Sárközy. F. se essa referência lhe foi útil, foi precisamente porque é uma tradição muito amplamente assimilada. A formulação da acusação interpelava toda a gente, mas permitia à direita não sentir que também era parcialmente visada. Ao acusar o Maio de 1968 até dos excessos do capitalismo selvagem, Sárközy reconhece que foi aquele movimento que deu origem à transição liberal, embora esta tenha, posteriormente, atingido proporções jamais sonhadas pelos que procuravam a praia debaixo das pedras da calçada. Imputar ao Maio de 1968 até os mais flagrantes excessos do capitalismo actual é, também, um álibi para o dia em que Sárközy se vergará à vontade dos seus companheiros de iate. Enterrar 1968 é um exercício inútil, porque já está feito há muito. Se for necessário organizar o funeral, façamo-lo, mas sem mitos nem artimanhas.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

O fim do comunismo

O ano de 1968 marca, em todo o mundo, o início da transição liberal, que virá a conhecer a maior eclosão em 1989, com o desmoronamento dos sistemas de tipo soviético. E é isso que escapa, de forma incompreensível, à análise da direita. Os delírios maoístas (depressa esfumados) fazem parte da superfície das coisas e não devem induzir cm erro quanto aos elementos de fundo da mudança. O capitalismo que os dirigentes de 1968 criticavam nada tem que ver com o actual e o comunismo contra o qual se mobilizavam cm Praga ou na Polónia já não existe. Há quem se sirva do terrorismo europeu de extrema-esquerda dos anos 1970 para desacreditar a herança de 1968. É verdade que uma franja da extrema-esquerda encarava a possibilidade de recurso à violência, mas tratava-se de um sector residual, sobretudo em França. A maioria dos actores do Maio de 1968 integrou-se no jogo democrático. Só em Itália e, em menor escala, na Alemanha, o terrorismo marcou uma geração. Mas aí surgem outras complexidades, como o que alguns designam por «matrice» católico-comunista, uma «over-dose» de desejo de verdade. Europa, o terrorismo mais persistente não tem que ver com os valores de 1968: é o terrorismo nacionalista da ETA ou do IRA.
Ao enterrar 1968, que valores quer Sárközy restaurar? Com a forma de entender e viver o mundo que 1968 deitou abaixo, Sárközy nunca poderia ter sido Presidente, pois era impensável que um filho de imigrantes governasse a França. A sua família não teria entrado no Eliseu, porque a moral da época não teria tolerado que a «primeira família» do país fosse um casal com cinco filhos de três casamentos e de quatro progenitores, constantemente à beira do divórcio. Ségolène Royal não teria sido sua adversária, pois era impossível uma mulher aspirar à Presidência da República. E por aí fora. As bases da actual sociedade do individualismo e da autonomia do sujeito foram lançadas nesse ano. Estava em curso a transição liberal. Esta fez o seu caminho, marcado por orientações muito afastadas dos espíritos diversos que animaram 1968. Porque 1968 não era um projecto político, antes um protesto. Rompeu amarras com a cultura, a moral e os hábitos das gerações precedentes, condição indispensável para aparelhar o navio da nova modernidade.
Porque procurou Sárközy, então, apresentar-se como coveiro de 1968? Porque isso lhe permitiu vincar aquilo a que Pascal Bruckner chama a tentação da inocência, essa tendência para a recusa da responsabilidade que se esconde por trás de uma certa negação do mal ou a reticência em reconhecê-lo.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O Maio de 68...

Nicolas Sárközy anunciou, durante a campanha eleitoral (para as presidenciais francesas de 6 de Maio), o enterro do Maio de 1968. Uma vez chegado à Presidência da República, porém, nem sequer se deu ao trabalho de organizar as exéquias. Pelo contrário, para dar credibilidade às suas promessas de abertura, confiou a política externa da França ao activista Bernard Kouchner, a personalidade mais popular da esquerda, que construiu a sua liderança pessoal com materiais vindos dos passeios calcetados do Quartier Latin. Com a comemoração do 40º aniversário do Maio de 1968, no próximo ano, antevê-se uma avalancha de mitologia de demolição e contra-mitologia barata. Antes que tal aconteça, vou tentar responder a duas questões: porque é que Sárközy faz uma análise errónea de 1968? E porque se serviu disso durante a campanha eleitoral?
Sárközy comete dois erros. O primeiro, muito típico dos franceses, é esquecer que, em Maio de 1968, as coisas não se passaram apenas em França. O segundo, muito próprio da direita, é não perceber que o capitalismo, pela sua capacidade de mutação (uma das razões para a sua superioridade em relação ao comunismo), e a direita liberal foram os principais beneficiários do Maio de 1968. Em 1968, estalaram revoltas por todo o mundo, com uma universalidade inédita. O talento comprovado dos franceses para lançarem os seus produtos no mercado dos artigos políticos culturais não nos deve fazer esquecer o resto: a revolta dos universitários americanos em Berkeley, a dos alemães em Berlim, a dos operários polacos, a dos checos na Primavera de Praga, violentamente esmagada pelas tropas do Pacto de Varsóvia, a das classes populares mexicanas, sangrentamente reprimida na Praça das Três Culturas da Cidade do México, a dos operários e estudantes no Outono «caldo» italiano ou a dos jovens de Tóquio e Seul.
Apesar das enormes diferenças, todos esses movimentos tinham um ponto em comum: a luta contra os espartilhos autoritários, políticos, mas também culturais e morais, que oprimiam esses países. Eram movimentos de ruptura com sistemas de crenças e costumes obsoletos, que impendiam a eclosão da nova modernidade. Daí o seu carácter libertário, contra a forma de agir da ordem estabelecida. O discurso era anticapitalista no Ocidente, e anticomunista no Leste, mas, por toda a parte, profundamente anti-soviético. É um elemento chave de 1968. Eis porque incomodava tanto os partidos comunistas europeus, que começavam a perder a hegemonia na esquerda. Não tem nada de espantoso que uma crítica radical do totalitarismo soviético, como a dos «novos filósofos» franceses, tenha emergido dos escombros de 1968.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O verdadeiro catecismo

Ama a humanidade. Escuta a voz da natureza, que te brada: todos os homens são iguais, todos constituem uma única família. Tem sempre presente que não só és responsável pelo mal que fizeres, mas pelo bem que deixares de fazer. Faz o bem pelo amor do próprio bem. O Verdadeiro culto consiste nos bons costumes e na prática das virtudes. Escuta sempre a voz da consciência: é o teu juiz. Trata de te conhecer, corrige os teus defeitos e vence as tuas paixões. Nos teus actos mais secretos supõe sempre que tens todo o mundo por testemunha. Ama os bons, anima os fracos, foge dos maus, mas não odeies ninguém. Fala sobriamente com os superiores, prudentemente com os iguais, abertamente com os amigos, benevolamente com os inferiores, leal e sinceramente com todos. Diz a verdade, pratica a justiça, procede com rectidão. Não lisonjeies nunca, é uma traição. Se alguém te lisonjear, toma cuidado não te corrompa. Não julgues ao de leve as acções dos outros. Louva pouco e censura ainda menos. Lembra-te de que para bem julgar os homens é preciso sondar as consciências e perscrutar as intenções. Se alguém tiver necessidade, socorre-o, se se desviar da virtude, chama-o a ela, se vacilar, ampara-o, se cair levanta-o. Respeita o viajante, auxilia-o; a sua pessoa é sagrada pára ti. Foge a contendas, evita os insultos, obedece sempre à razão esclarecida pela ciência. Lê, aproveita, vê e limita o que é bom, reflecte e trabalha. Faz quanto possas para o aperfeiçoamento da organização social, e assim contribuirás para o bem colectivo. Sê progressivo, estuda a ciência porque ela te conduzirá à verdade que tens por dever procurar. Não te envergonhes de confessar os teus erros. Provarás assim, que és hoje mais sensato do que eras ontem e que desejas aperfeiçoar-te. Moraliza pelo exemplo, sê obsequioso, tolera todas as crenças e todos os cultos, mas tem por dever lutar contra a superstição, o fanatismo e a reacção, como os mais resistentes obstáculos ao progresso humano. Educa e ensina, esclarece os outros com o teu conselho, inspirado pela circunspecção e pela benevolência. Regozija-te com a justiça, insurge-te contra a iniquidade: sofre os azares da sorte mas luta contra eles no intuito de os vencer. Procede sempre de forma que a razão fique do teu lado. Respeita a mulher, não abuses nunca da sua fraqueza, defende a sua inocência e a sua honra. Ama a Pátria e a Liberdade. Sê bom pai, bom filho, bom irmão e bom amigo. Quando fores pai, alegra-te, mas compreende a importância da tua missão. Sê um protector fiel do teu filho. Faz com que até aos dez anos te obedeça, até aos vinte te ame e até à morte te respeite. Até aos dez anos sê seu mestre, até aos vinte seu pai e até à morte seu amigo. Ensina-lhe bons princípios de preferência a belas maneiras; que te deva uma rectidão esclarecida e não uma frívola elegância. Fá-lo um homem honesto de preferência a um homem astuto.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Sou de esquerda...

Com a marca de verdade derradeira e universal tem sido inculcada, de um modo sobremaneira crasso, a ideia da relatividade das concepções do mundo e das opções políticas. Direita e esquerda seriam escolhas tão inó­cuas e indolores como a pertença a um clube desportivo ou colectividade de bairro, questão de colorido, proximidade de vizinhança. A tese não é nova e ressalta sempre que haja conveniência e oportunidade. Repete-a agora, até à náusea, inserida num esquema aprendido mais ou menos de cor, de mistura com um rol de trivialidades, um conjunto de criatu­ras formatadas, que lembram a expressão de Manuel da Fonseca "jovens velhinhos". Campeia por aí um coro de adolescentes iletrados, possessos de Adam Smith, que li­sonjeiam os patrões ("criadores de riqueza") por julgarem que a vida tem de ser mesmo assim. De há uns tempos para cá, instalou-se este fenómeno deprimente do jornalismo de libré. Estabeleceu-se uma espécie de tirania da frase em que toda a gente se sente vinculada a repetir as mesmíssimas coisas. A direita é precisamente quem tem interesse em que se mantenha a indiferenciação. Joga na indistinção. Sente-se absolvida, desimpedida e desenfiada. Um facto encobre e justifica o outro. As chacinas nazis na Segunda Grande Guerra, por exemplo, teriam equivalência nos bombardeamentos maciços dos aliados em território alemão, Auschwitz, no Gulag. Todos quites. Tudo igual. Há muitas outras equiparações do género, complementadas com a ideia cínica de que são os vencedo­res que escrevem a História, e, no fundo, revolução e contra-revolução, miguelismo e liberalismo, inquisição e Reforma, fascismo e comunismo, democracia e ditadura, cabe tudo no mesmo saco. O homem seria por natureza desesperadamente ruim, e a história aí estaria a demonstrar que não há nada melhor que um bom capitalista.
Em boa verdade, usamos “esquerda” e “di­reita” por comodidade de conversação. Hoje pouco importa a disposição na topografia da Assembleia Constituinte de 1789 ou o voto sobre a decapitação do rei. Entre as noções, há turbulências de fronteira, e, dentro delas, equívocos, contradições, paradoxos. Fora dum contexto é sempre difícil dizer se tal ou tal medida isolada é “de direita” ou “de esquerda”. Em muitas situações a qualificação das políticas torna-se tremida ou incómoda. A questão parece resolvida quando se opta por uma explicação simples e reveladora: a luta de classes, por exemplo. Tudo o que favorecesse, em maior ou menor grau, as posições da classe operária e dos seus aliados, na gigan­tesca tarefa de transformação revolucionária, seria de esquerda. Tudo o que a contrariasse seria de direita. Mas o critério dos interesses da classe operária não resistiu à prova do pudim, que segundo um velho provérbio inglês, muito citado por Marx e Engels, consiste em que se come. São comprováveis antagonismos de classe, desde os mais remotos tempos históricos. Os confli­tos sociais da república romana pela posse da terra, em que os posicionamentos de classe, a avaliar pelo que relatam os especialistas, eram duma clareza paradigmática, não deixam de ser interessantes. Mas a teoria da luta de classes não resolve a destrinça entre esquerda e direita, nem creio que a distinção se opere no campo dos abstractos e hipotéticos interesses sociais. Procurar hoje saber se a conspiração de Catilina era, avant Ia lettre, de direita ou de esquerda, progressista ou reaccionária, é um absurdo escolástico muito próprio de algu­mas infindáveis discussões dos anos sessenta do século XX. Se aplicarmos os critérios à contemporaneidade, também surgem imedia­tamente as perguntas incómodas e arrasadoras. Os Pol-Pot, os Ceauscscu, os Kim il Sun, e por aí fora. Às tantas estamos num enredo ptolemaico de explicações, contra-explicações e explicações das explicações.
Por outro lado, uma identificação pelo lado luminoso da ética, ou pelos bons sentimentos, não parece levar muito longe. Nos meios que frequento, tende-se a identificar a esquerda com aquele conjunto de atitudes e comportamentos que cabem sob a genérica designação inglesa de fair-play, originária, aliás, de am­bientes que de esquerda nada tinham. Aqui há uns anos, com poucas excepções, as opiniões literárias de pessoas consideradas de direita excluíam os autores portugueses, apenas por eles terem fama de «ideias avançadas», como então ridiculamente se dizia. O sectarismo de direita sempre foi, de uma forma geral, mais feroz, descarado e prepotente que o de es­querda. Mas não se pode negar que há excep­ções: em gente assumida e tradicionalmente de direita também existe, por vezes, um forte apego à decência e mesmo uma preocupação de justiça merecedoras de nota. Adiante vol­tarei a este particular.
Ultimamente, têm-se visto pessoas meritórias, de trato civilizado, reconhecida rectidão e provados sentimentos democráticos a alinhar em abonações a um Presidente americano do Texas, primitivo, ultra-reaccionário, muito próximo da sua própria caricatura, e que vem sendo, pelo comportamento e visão do mundo, a negação da própria inspiração fundadora dos Estados Unidos. Este americanismo básico, de muito boa boca, pronto a tudo, faz lembrar o pró-sovietismo acrílico doutros tempos.
Chega a avalizar a violência cega, a mentira e a tortura e alinhar num irracionalismo de bandeira completamente alheio a princípios. Confundir George W. Bush, aquela manifesta incompetência e postura fachista, com os Estados Unidos é uma agressão ao próprio povo americano e a todos os que gostam da América. A resistência à política imperial de Bush e da mal recomendada trupe que ocupa hoje o poder na América é uma homenagem àquilo que há de melhor nos Estados Unidos. Não é antiamericanismo. E o contrário disso.
Eu não confundiria a deriva desta gente respei­tável com uma moda direitista que anda por aí à desfilada e que é muito semelhante àquilo a que em tempos se chamou, do lado contrário, a “esquerda festiva”. Agora é a direita festiva. Bebem-se uns copos, escrevem-se umas “artigalhadas”, confraterniza-se, e está-se pronto para o lance seguinte, que pode ser de roupa­gem direitista ou não, conforme assoprarem os ventos do tempo. Em casos mais lamentá­veis, são manifestas a lavagem do cérebro, a hipnose pela propaganda, ou, eventualmente, motivações ainda menos desculpáveis. Mas também aparece aqui e além um ressentimento desiludido contra a esquerda, em alguns casos merecedor de compreensão.
Tem de se admitir que o folclore da esquerda está repleto de tolices, de inverdades e de estereótipos irritantes. Isto à revelia do livre exame e do exercício da crítica que, a meu ver, são, precisamente, o ponto forte da esquerda. Há, na área, quem reaja por reflexos condi­cionados ou não seja capaz de mais do que seguir uma cartilha, ou um catálogo prefixo de comportamentos. Um pouco como nos pro­sélitos da propaganda americana, dizem o que esperam que digam, e respondem com “ideias de esquerda” ou “concepções de esquerda” prontas a sair. O problema é que, não sendo sempre possível chegar à verdade (os antigos figuravam-na no fundo de um poço) o pen­samento de esquerda caracteriza-se por não aceitar mentiras. A partir do momento em que se mente, tudo isto deixa de valer a pena.
Estou a lembrar-me da fábula do homem primitivo, em comunhão com a natureza, a deliberar democraticamente à sombra de uma árvore frondosa, desconhecendo a escravatura e a guerra, vivendo em bucólica harmonia. Isto contrasta com os relatos - que não há razão nenhuma para supormos inventados - que falam de chacinas constantes, de crânios empilhados em pirâmide, de rituais de antro­pofagia. A condenação do colonialismo não obriga à ocultação da hediondez do mundo que os europeus foram encontrar.
Agora insiste-se em fazer derivar o terrorismo de condições sociais degradadas que o pro­duziriam, numa relação de causa e efeito. Ou como contrapartida da arrogância ocidental, numa espécie de “excesso de legítima de­fesa”, como diriam os juristas, de boa gente desinquietada pelo imperialismo ianque. Isto é falso e perigoso. E desistir de todas as tentativas, não digo para compreender, mas para enfrentar o mundo de hoje e as ameaças que impendem sobre a Humanidade. Ora trata-se de uma coisa diferente, que não vem mapeada nos manuais nem nos catálogos. E o atraso, é o primitivismo, é uma vandalização em grande escala, é o fanatismo, é o Mal. Nós, ditos oci­dentais, não temos culpa de que exista o Mal.
Este masoquismo auto-sacrificial em que se comprazem os nossos contemporâneos, como se fossem culpados da História (e os outros não), representa uma demissão face à ameaça e uma submissão à mentira que obviamente incomodam a gente mais atenta e municiam a argumentação da direita.
E é preciso admitir, por outro lado, que a esquerda também transporta muitas misérias. Todas as chamadas utopias falharam, umas caricatamente, nas bem intencionadas experi­ências oitocentistas, outras tragicamente, nos chamados socialismos reais, com a implan­tação do terror, da miséria e da humilhação, sobre populações inteiras. É um lastro sinistro. Uma posição minimamente honesta não pode ignorar os milhões de mortos provocados pelos estalinismos, pelos maoismos e por engenharias sociais totalitárias. É perfeita­mente descabido e ofensivo para as vítimas entrar na guerra dos números e discutir a prioridade macabra de quem é que matou mais, se a esquerda se a direita. Acho que, pura e simplesmente, não se matam pessoas. E este é um dos princípios que me recuso sequer a discutir.
Sinto-me revoltado, até pela minha própria ingenuidade em certo período. De pouco me serve reconhecer que não houve, até agora, obra humana, por mais generosa, que não tenha sido desde logo impregnada pelo mal. Atentem os cristãos nos crimes e homicídios que pontuaram toda a história da Igreja. É a inquisição a essência do catolicismo romano? E desculpável? Quando ouço um católico a justificar a Inquisição com os argumentos da época ou da pressão do poder real, penso sempre: “Este estava prontinho para outra”. E quando ouço alguém a minimizar os horrores do estalinismo, ocorre-me logo: “o que é que este me faria a mim?”
É preciso assumir claramente estas misérias, sem nenhuma espécie de ambiguidade ou falácia. A esquerda também tem este horrendo contrapeso.
Os homens têm evoluído contra o que é natural e são sistematicamente traídos pela emergên­cia do natural. O natural é o medo, a humilha­ção e sobretudo, a morte. O totalitarismo e a opressão são naturais. O estado democrático não é natural. O chamado modelo social europeu não é natural. Implicou um tremendo esforço de construção e de racionalização e a superação difícil, sempre problemática, fase após fase, do egoísmo primitivo e de certas relações de submissão.
A primeira vista, hoje partilhamos todos os mesmos princípios e concordamos nos mesmos pontos essenciais. Somos todos civilizados. Os tempos são aparentemente de apaziguamento e de indulgência recíproca. Mas será mesmo assim? Como é, quando chegam os momentos decisivos? O que acon­tecerá quando houver um desequilíbrio, uma ruptura? Contra que é que a direita se tem batido? A direita esteve contra o sufrágio uni­versal, contra a liberdade de imprensa, contra a escola laica, contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de manifestação, contra o livre-pensamento, contra o divórcio, contra a igualdade das mulheres, contra o preserva­tivo, contra a pílula, contra a descolonização, contra o abolicionismo, contra o fim da pena de morte, contra os sindicatos, contra o movi­mento operário, em suma, contra tudo o que assinalava, de uma forma ou doutra, progresso e bem-estar.
Em Portugal a direita assume os dias hedion­dos do miguelismo, a postura retrógrada da hierarquia católica durante todo o século XIX, os cinquenta anos de fascismo, a miséria, o atraso, a violência, o analfabetismo. É o lado negro e torpe da nossa História recente. E isto para não ir mais para trás e para não abusar das esquerdas/direitas, antes delas terem sido usadas na acepção progresso/reacção.
Passando pelos direitismos circunstanciais, em que falei acima, voláteis e transitórios, estou profundamente convencido de que para a direita há uma espécie de pólo de atracção, uma querença primitiva e ancestral, a apontar para a exploração, a violência e a humilhação dos outros. Há a preservação titular ou lacaia de um núcleo de interesses, a que a ideia de bem comum é estranha. Há a aposta, por sis­tema, no preconceito, ainda que isso implique a mentira e a mistificação.
Vêm-me logo à memória a polémica “Eu e o Clero”, o “caso Dreyfus”, o governo traidor de Vichy.
Aquilo que na esquerda é uma perversão, um abismo, na direita é um rumo e uma com­ponente estruturante. A direita carrega a sua própria natureza, a esquerda tem muitas vezes de suportar o fardo da natureza do Outro. Nas situações limite, na hora da verdade, as coisas clarificam-se.
Por isso é que me é difícil evitar um sobres­salto de estranheza quando ouço alguém, que respeito ou estimo, dizer, a qualquer propósito, que é de direita. Parece-me sempre a incómoda confissão de uma anomalia, como se essa pes­soa estivesse a despojar-se de si, a ostentar defeitos, deformidades, mazelas, com um exi­bicionismo de pobre de província de outrora, em vez de os sepultar no imo, sem bafejos de luz, nem exibições irremediáveis. Há relances dum rasgar as roupas, dum suspender-se do pelourinho, dum bater cavo no peito, duma humilhação de rojar o pó, que desconcertam na altura em que nos pomos a julgar. Fica su­bliminar, indefinida e pesada, uma compaixão muito condoída, uma tristeza pelo outro, uma vontade de não ter presenciado, de ter ouvido ou lido mal, de que ele tivesse dito antes uma outra coisa. Fui formado num sistema de re­jeições e desprezos que dispõe e hierarquiza valores que não aceitam sem rebate ou dó as personificações infernais.
Há algumas pessoas estimáveis (por razões não apenas do coração) que se prestam a esta identificação, com um despacho nem sempre desprovido de candura. Apetece-me desmenti-las, autoritariamente: “não, você não pode ser de direita, você é um poço de decência, não pode dizer uma coisa dessas”.
E a estima fica, apesar de tudo, intacta. Eu posso dar-me ao luxo do fair-play. Sou de esquerda…

terça-feira, 29 de maio de 2007

Só duas Palavrinhas Sr. Bispo....


Sr. Bispo António Marcelino, Digno Bispo Emérito de Aveiro, sei que não se vai dar ao trabalho de ler estas duas linhas mas (pode ser que por graça do Criador lhe vá ter às mãos e é a acreditar nisso que o faço), quem sou eu para ter tal pretensão? Quero confessar-lhe que li com muita atenção o seu artigo de opinião com o título “Maçonaria, república e poder governativo” e aproveito para lhe lembrar que a cólera e o ódio são pecados muito graves e que “quem tem telhados de vidro, não deve atirar pedras ao telhado dos outros”, “nem cuspir para cima porque lhe pode cair em cima”.
Não vou responder aos seus acessos de cólera contra a Maçonaria “Carbonária”, porque isso cabe a ela se achar que o merece, ou então, simplesmente ignorá-lo e não lhe dar nenhuma importância atendendo que a partir de certa idade ficamos um pouco gagás e perdemos a noção das coisas, principalmente do tempo, tempo esse em que o senhor parou, no Estado Novo, com quem a sua igreja estava “casada”, através de uma tal Concordata, o que não era de estranhar pois também o fez com Mussolini, Hitler, Franco, Pinochet, etc. coisas de uma Igreja do Império fundada pelo Constantino.
O que me preocupa é ser cidadão de um Estado Republicano, onde a laicidade é um dos seus pilares e ver nas Cerimónias oficiais do Estado uma cadeira reservada para a sua Igreja Romana se fazer representar sem direito a ela, os crucifixos nas escolas e hospitais públicos, como se estivéssemos no reinado dos reis católicos (que neste momento lhe dava jeito), fruto de uma democracia eternamente tolerante, onde os senhores não pagavam impostos, nem contribuições dos vossos negócios praticados na sacristia e ainda recebem subsídios do Estado para negócios que controlam e que eu saiba, esses privilégios não foram, nem são, extensivos a maçonaria mas, como dizia, em cima, é um problema dela e não meu.
Eu até compreendo que esteja preocupado com o número de maçons no Governo e na Assembleia de Republica. Eu também ficaria preocupado, não fosse o numero de amigos seus da Opus Dei e dos Católicos que por lá andam, que todos juntos, são em numero muito superior mas, o que se há-de fazer quando ninguém pode ser descriminado pelas suas opções particulares, o que não acontecia no Estado Novo, tempo em que a sua Igreja era parte do poder (mas “um dia é do caçador e o outro da caça”). Há uma velha máxima em África que diz “o macaco só vê o rabo nos outros”. Isto para dizer que devemos conhecer bem a nossa história antes de contar a dos outros e a história do Estado que representa, ainda que geograficamente ocupe em Roma um diminuto espaço de 108,7 acres – aproximadamente um oitavo do Central Park em Nova Iorque -, tem um lado negro muitíssimo grande que vem das cruzadas, perseguições, Inquisição, perversão do Papa Borgia e um desenrolar de práticas muito pouco cristãs até à actualidade e que o senhor não deve ignorar, assim como mortes sem explicações, como a do Papa do Povo Albino Luciani, que, por coincidência, queria mudar o rumo da Igreja. E já agora, porque não escreve artigos de opinião sobre nomes que lhe são bem familiares como: Banco Hambrosiani e os 14,5 milhões (na altura) de dólares em acções falsas, Bispo Paul Marcinkus, Cardeal Alberto di Jorio, Michele Sidona, Roberto Calvi, Licio Gelli, Bernardino Nogora, Humberto Ortolani (que Paulo VI destinguiu com “Cavaleiro de Sua Santidade”), as Acções na fábrica da pílula contraceptiva, em Sociedades Imobiliárias, fábrica de tanques de guerra, e um sem fim de outros nomes. A implicação na “Propaganda Due” com ligações à máfia, máfia que sempre foi uma grande cliente do Banco do Vaticano e mais não digo, por presumir ser do seu conhecimento e que seria um bom tema.
Para terminar e sem ressentimentos, atrevo-me a dar-lhe uma sugestão. Vem aí o verão, vista uns calções (essa vestimenta deve ser muito quente), pegue num chapéu de sol e uma cadeirinha, sente-se à beira da praia (que há muitas e boas por aí) e aproveite para ler e se não souber o que ler, gostaria de lhe sugerir dois autores, Mário Puzo e David Yallop.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Mãos à obra...

A vitória de José Ramos Horta nas eleições presidenciais de Timor-Leste foi um passo significativo para a criação de uma verdadeira democracia multipartidária, assim como para romper com o domínio da organização política que dirigiu a luta pela independência.
Trata-se apenas do primeiro passo para colmatar as profundas divisões políticas e sociais que, no último ano, mergulharam o país em confrontos generalizados, quatro anos apenas após a sua autodeterminação, em 2002.
Ramos Horta, que se tornou o rosto internacional da luta de Timor-Leste pela independência, durante os 24 anos da ocupação indonésia, obteve 69% dos votos na segunda volta das eleições, a 9 de Maio, segundo uma contagem provisória anunciada no dia 11 pela Comissão Eleitoral. Nestas eleições, que os observadores estrangeiros descreveram como bem organizadas e pacíficas, o seu adversário, Francisco Guterres, um antigo guerrilheiro, obteve 31 por cento. Os resultados oficiais deverão ser anunciados amanhã, mas Guterres reconheceu a derrota no dia 11. Ramos Horta deverá prestar juramento a 20 de Maio.
Esta eleição foi um duro golpe para o partido de Guterres, a Fretilin, que controla o Governo desde que Timor-Leste acedeu à independência. As Falintil, sua ala militar, já desmantelada, fizeram uma guerra de guerrilha contra a Indonésia desde 1975 e Guterres era um dos comandantes mais destacados do exército rebelde.
A Fretilin enfrenta agora uma dura batalha para conservar o poder nas eleições legislativas marcadas para 30 de Junho, nas quais vai concorrer com outros 15 partidos. Entre estes haverá o novo partido liderado por Xanana Gusmão, que comandou as forças da guerrilha até ser capturado, em 1992. Xanana optou por não se recandidatar a Presidente, a fim de poder concorrer às eleições e tornar-se primeiro-ministro, a verdadeira sede do poder em Timor-Leste.
O enfraquecimento do controlo do poder pela Fretilin, como sugerem os resultados eleitorais, poderá abrir caminho para uma democracia mais vibrante. Antes, ninguém teria acreditado que a Fretilin obteria apenas um quarto dos votos. A Fretilin tinha a hegemonia. Falta ainda, no entanto, ver se as eleições ajudarão a criar um governo mais eficaz e a ultrapassar as divisões existentes na sociedade timorense.
Desde a independência, a frustração popular face aos políticos tem vindo a aumentar de forma sustentada, devido ao facto destes não terem satisfeito as expectativas de criação de emprego, redução da pobreza e fornecimento de serviços básicos.
Uma das grandes fraquezas do Governo tem sido a falta de capacidade administrativa para implementar programas aprovados no orçamento. Esse facto tem levado a atrasos nas despesas do Governo em melhores infra-estruturas e serviços. Ao mesmo tempo, o investimento privado tem sido reduzido.
Segundo informações do Banco Mundial, num relatório recente, o desemprego em Dili, onde vive um quarto da população activa, é de cerca de 27%. Entre os jovens da cidade, essa taxa atinge perto de 40%, o que gera um terreno fértil para a delinquência.
As tensões chegaram ao rubro em Abril de 2006. Timor-Leste mergulhou numa crise política e de segurança, depois de 40% do Exército ter entrado em greve devido a uma alegada discriminação nas promoções e remunerações.
O Governo do primeiro-ministro Mari Alkatiri, secretário-geral da Fretilin, despediu os soldados grevistas, desencadeando uma onda de violência em resultado da qual cerca de 150 mil pessoas saíram das suas casas e 37 outras foram mortas. Alkatiri foi forçado a demitir-se do cargo de primeiro-ministro, tendo sido substituído por José Ramos Horta, até à data ministro dos Negócios Estrangeiros.
Ramos Horta, de 57 anos, afirmou na sexta-feira que iria dedicar a sua presidência a sarar as feridas causadas pela violência do ano passado. Deu de imediato início a esse processo, depois de a sua vitória se ter tornado clara, contactando o candidato derrotado, Francisco Guterres, e encontrando-se com Mari Alkatiri.
Mostrou ser sua intenção trabalhar com os seus colegas do Governo e dos partidos políticos, com a Igreja, com o Presidente cessante, para prosseguir a estabilização do país, consolidar a nossa democracia e dar empregos ao povo.
No entanto, a presidência é um cargo sobretudo cerimonial e a verdadeira luta pelo poder travar-se-á nas legislativas, que decidirão que partido ou coligação irá governar e quem será primeiro-ministro.
Alguns observadores em Dili consideram que Xanana Gusmão, um aliado próximo de Ramos Horta, é o favorito para o cargo de primeiro-ministro, depois de ter assumido, há um mês, a liderança de um novo partido, o Congresso Nacional para a Reconstrução de Timor. Contudo, é muito provável que venha a precisar do apoio de outros partidos para governar. Quando foi eleito Presidente, em 2002, Xanana Gusmão era um herói guerreiro, considerado como acima das disputas políticas. Ao aspirar ao cargo de primeiro-ministro, Xanana estará a pôr à prova a sua capacidade para implementar a governação sólida que a Fretilin não foi capaz de impor.
Apesar dos problemas que teve de enfrentar, durante os seus turbunlentos quatro anos no poder, o Governo Fretilin de Alkatiri não tinha falta de dinheiro no orçamento. As Nações Unidas estimaram que perto de 40% da população de um milhão de habitantes vivem com menos de 55 cêntimos por dia, o que faz de Timor-Leste um dos países mais pobres do mundo, apesar das receitas significativas dos campos de petróleo e gás natural.
As receitas do petróleo e do gás aumentaram o Fundo do Petróleo do país para cerca de mil milhões de dólares (738,5 milhões de euros). Segundo o Banco Mundial, em 2006, os saldos do orçamento e da balança de pagamentos correntes foram de mais de 100 % do produto interno bruto, com excepção do petróleo.
Garantir que o dinheiro é efectivamente gasto para aliviar a pobreza será um dos grandes desafios para o novo Governo.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

A propósito da França

A vitória de Nicolas Sárközy a 6 de Maio de 2007 na segunda volta das eleições presidenciais, com 53% dos votos, assinala uma viragem na história da V República francesa. Não se trata da simples recondução da direita ao poder que ocupou, ao mais alto nível, de 1958 a 1981 e novamente desde 1995. O programa do candidato da UMP, combinado com as forças que quis reunir a sua volta, assinalam uma inflexão fundamental: fazem com que Sárközy seja o primeiro presidente simultaneamente neoliberal, autoritário, pró-americano e pró-israelita.
O ruído sistemático de uma campanha eleitoral marcada por referências eclécticas, de Joana d'Arc a Léon Blum, não consegue mascarar o perfil político muito bem definido de Nicolas Sárközy. Ainda que defenda um voluntarismo graças ao qual o Estado poderia «proteger» a França e os franceses, o seu programa económico e social inspira-se largamente nas velhas receitas thatcherianas e privilegia… os privilegiados. Do mesmo modo, os seus arrebatamentos republicanos não conseguiram apagar uma visão da sociedade essencialmente securitária, que às reivindicações das classes populares e da juventude apenas responde com a repressão. Explicando isto talvez o que se segue, a sua «derrapagem» sobre as origens genéticas da pedofilia e do suicídio dizem muito acerca do sorrateiro eugenismo que o inspira. Por fim, apesar dos esforços para atenuar o efeito da unção pedida ao presidente George W. Bush, Sárközy não negou a vontade de se reaproximar da política americana, incluindo no Médio Oriente, para já não falar do anunciado enterro, através de um procedimento parlamentar, do referendo de 29 de Maio de 2005 sobre o Tratado Constitucional da União Europeia. Se o programa de Sárközy é importante, a «clientela» à qual se empenhou em vendê-lo não o é menos. Deste ponto de vista, as grandes manobras entre as duas voltas destinadas a recuperar o eleitorado de François Bayrou não apagam os meses de incitação ao de Jean-Marie Le Pen. A coberto de uma «reconversão» das tropas deste último à democracia, o candidato da direita interiorizou literalmente as teses da extrema-direita: da proposta de criar um ministério da imigração e da identidade nacional à recuperação da palavra de ordem «a França ama-se ou abandona-se»; da perseguição aos sem-papeis, até em frente às escolas, a abolição da lei de protecção dos menores de 1945; da pseudo-defesa dos que «se levantam cedo» contra os «oportunistas» e os «beneficiários de apoios sociais». Nenhum dos seus antecessores tinha ido tão longe para conseguir ser eleito. Convêm, por isso, avaliar bem a situação antes de saudar o recuo da Frente Nacional.
Os esforços de Sárközy e os apoios mediáticos maciços de que beneficiou não explicam contudo, por si só, o seu êxito, tal como não explicam os efeitos perversos, uma vez mais verificados, da eleição presidencial por sufrágio universal: personalização, demagogia, voto útil... Face à direita e à extrema-direita, pesou sobretudo a ausência de uma autêntica alternativa política. Desde 1969, nunca o total dos votos de esquerda na primeira volta (36,44%) havia sido tão fraco. E há razões para isso. O Partido Socialista deixou que as sondagens lhe impusessem uma candidata, Segolène Royal, que de facto conseguiu apagar o traumatismo de 2002, mas sem oferecer às forças populares uma perspectiva mobilizadora. Tanto mais que, ao seu lado, o Partido Comunista, a extrema-esquerda e os ecologistas não se uniram para prolongar as grandes mobilizações socais em defesa da Segurança Social e das pensões de reforma, o impulso do «não» no referendo de 29 de Maio de 2005 e a cólera das periferias urbanas. Para além das querelas de aparelho e de pessoas, o que está em causa é, em primeiro lugar, a incapacidade de se pensar uma política anti-capitalista a escala de França e da Europa.
É neste terreno que tem que se recomeçar a reconstruir, e sem demora. Porque, se vencerem as eleições legislativas, a direita e a extrema-direita no poder, tentarão fazer aprovar um grande número das suas medidas políticas de destruição social: contrato de trabalho único copiado do CNE (contrato de novos empregos); aumento do tempo de trabalho; obrigação de actividade em troca dos benefícios sociais mínimos; limitação do direito de greve; destruição do Código do Trabalho; supressão dos direitos de sucessão e, através do «escudo fiscal», do imposto sobre as grandes fortunas; prossecução do desmantelamento dos serviços públicos, da protecção social e das reformas; taxas progressivas nas despesas de saúde; não substituição de um em cada dois funcionários públicos que partem para a reforma; liquidação do mapa escolar; novas ameaças às aposentações; perseguição aos imigrantes, acompanhada de um apelo à mão-de-obra «escolhida» do Sul; relançamento da Europa liberal e apoio a política americana, etc. A esquerda vai precisar de todas as suas forças para resistir a esta ofensiva sem precedentes, mas também para reabrir uma perspectiva de mudança. Esta não é a perspectiva de qualquer militante partidário, mas tão somente de alguém empenhado na defesa de valores com os quais há muito está comprometido.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Ainda a Liberdade e aqui, de consciência.

Fiquei de certo modo consternado ao ver hoje o Telejornal. Por um lado, o Papa Bento XVI a desembarcar numa Nação soberana e logo a coagir com ameaças de excomunhão os autores do referendo sobre o “aborto” e veladamente os que votarem a favor, como se os cristãos brasileiros que depois de assistirem a uma homilia (bastante animada por lá, com danças e conjuntos musicais) se for preciso, seguem logo para um sessão espírita ou candomblé, estivessem muito preocupados com a excomunhão, quando o que mais os preocupa é a falta de liberdades, segurança e a pobreza extrema em que a maioria vive. Por outro lado, as eleições em Timor Leste (Lorosae) e é destas que agora interessa falar.

Durante anos, o Sr. Dr. Ramos Horta, esteve em Portugal exilado às expensas dos contribuintes, sob a égide da Democracia e do direito dos povos à sua independência, foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz e pelos vistos, a palavra liberdade é coisa que não faz parte do seu vocabulário.
Apoiou o Sr. Bush que à revelia da ONU e do Direito Internacional, invadiu um País soberano com o pretexto de impor a democracia e as liberdades ao povo (único país do Médio Oriente onde havia liberdade de religião), quando por trás estavam os interesses económicos, alicerçados no petróleo e outras riquezas e não vale a pena fazer mais comentários, porque o resultado está bem patente.
Agora, vimo-lo na campanha para as eleições presidenciais manipular a consciência de um povo com um grande défice de instrução, a viver num estado de miséria extrema e por estas razões, facilmente manipulável (ou não entrasse mais depressa um camelo pelo buraco de uma agulha, que um rico no Reino dos Céus, no qual é obvio que a igreja não está interessada em entrar) por uma igreja que interfere num regime republicano que deveria ter como principio primordial a separação da igreja do estado e não se confundir com um Estado confessional, preocupando-se em publicitar a sua ida ao Bispo e o seu “aval” à sua candidatura a Presidente da Republica. Tudo isto seria normal se ficasse por aqui e não tivesse chamado Deus à sua campanha que foi presença constante nas suas intervenções.
Mas como dizia a minha avó – não há duas sem três – e a melhor forma de manipular, é condicionar a liberdade de pensamento de cada um com dogmas e aí o peso da religião (também o Bush se dizia inspirado por Deus para invadir o Iraque), é essencial para condicionar o exercício da cidadania em consciência, nem que para isso seja necessário aparecer à boca da urna, com toda a imprensa por perto, com uma camisola estampada com a imagem do Sagrado Coração de Jesus (e ainda por cá criticamos o Dr. Mário Soares quando faz algumas insinuações mais ou menos tendenciosas à imprensa depois de votar). Já sei, vão dizer que aqui é Europa e lá é Ásia e cada um é como cada qual. Mas o que não me vão convencer é que a Liberdade de Consciência ou qualquer outra, não é um Valor Universal e que tem de ter interpretações diversas tratando-se de um continente ou outro. O que diverge é o carácter e o oportunismo de cada um, dependendo das situações, oprimido ou opressor, e aqui a minha avó também dizia – não sirvas a quem serviu nem peças a quem pediu – e em algumas situações eu diria que “a porcaria é a mesma só mudam as moscas”.

Já alertava a Rosa Luxemburgo para aqueles que, vindo de outra classe social se alvoram em defensores do proletariado, porque o que eles vêm é uma possibilidade de liderança que não teriam na sua própria classe burguesa.

Irreverências na Saúde

O debate político originado em torno das urgências tem sido rico em demagogia e pobre em esclarecimentos úteis para a população. É pena que esse debate se centre tanto em questões do passado e presente e menos na reflexão estratégica que é necessário acontecer para debelar o verdadeiro problema do SNS: a oferta de serviços pouco eficazes na maximização da saúde dos seus utentes e muito eficazes na criação de uma excessiva dependência por parte daqueles que se encontram doentes.

É apelativa a lógica do ganho fácil de votos e defender "saúde para todos" dentro do actual paradigma do SNS, no qual saúde é igual a tratamento, com a urgência médica à cabeça! Mas, no actual Serviço Nacional de Saúde, quanto mais forem prestados serviços de saúde, maior será o crescimento do deficit das contas públicas.

Qualquer pessoa que defenda o direito à saúde, ou às urgências, sem defender uma profunda mudança do actual paradigma de prestação de serviços do SNS não está a prestar um bom serviço ao país e limita-se a enganar os portugueses.

Aquilo que urge é um esforço concertado de educação da população, bem como dos prestadores de cuidados de saúde. Assumir esta perspectiva poderá incluir a introdução de mais participação da cidadania no planeamento da saúde.

Se defendermos o encerramento de urgências, ou a aplicação de taxas na prestação de certos serviços de saúde, sobretudos os mais onerosos, devemos exigir igualmente mais eficácia em saúde.

As taxas moderadoras "cegas aos benefícios clínicos" irão desencorajar por igual todo o tipo de tratamentos, incluindo aqueles que realmente sejam mais eficazes. Não apenas a gratuidade dos tratamentos eficazes deve ser um objectivo, como também as taxas moderadoras deveriam promover igualmente comportamentos saudáveis.

O sonho de um SNS como um bem gerido, prestador universal e equitativo de todos os cuidados de Saúde de que a população precisa, arrisca-se a tornar num pesadelo. É um desperdício se o Estado não estabelecer sinergias e procurar maximizar o contributo de todos os actores não estatais, tanto no combate à doença, como na luta pela melhoria do estado de saúde da população.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Educação para a cidadania

As crianças aprendem valores essenciais para uma vida digna e solidária, na convivência com sua família e com a comunidade. A melhor maneira de as ensinar é pela pedagogia do exemplo, das atitudes e do diálogo. A maneira como a família convive com a comunidade, dá às crianças a oportunidade de conhecer e respeitar outras formas de viver, pensar e agir.
A família deve perguntar a opinião das crianças sobre as coisas simples, para que elas possam aprender a participar na vida familiar. Elas têm direitos que a família deve conhecer para lhes dar um bom começo de vida. Vendo os seus direitos respeitados, as crianças aprendem a respeitar o direito dos outros. Os pais devem conversar muito com os filhos e explicar-lhes tudo o que for possível. É importante perguntar as suas opiniões e respeitar o que eles pensam. Os pais educam pelo exemplo das palavras e atitudes.
Quando os pais cumprem os seus deveres e respeitam os direitos das crianças, estão a ensinar-lhes os valores da cidadania. A família tem o dever de ensinar as crianças a reconhecer e respeitar regras, valores e costumes diferentes dos seus, para que seja possível desenvolver um espírito de tolerância, base da construção de um mundo melhor.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Maddie McCann's - Divulgação







Desapareceu a MADDIE.
Com apenas 3 anos de idade, desapareceu do seu quarto (na Praia da Luz -Algarve) a pequena MADDIE.
Por favor, ajudem a divulgar as fotos da pequena Maddie.. para ajudarem aencontra-la e encontrar o autor deste acto monstruoso.. divulgar ao maior numero de pessoas possível.. para que todos os portugueses decorem a cara da menina.. se possível para além fronteiras.. para que com sorte alguém consiga reconhecer esta linda menina.. e leva-la para onde ela deve estar.. juntodos seus pais.. POR FAVOR AJUDEM.. É um dever de todos nós.. A preocupação é grande e o empenho na sua procura tem que ser ENORME. Ficam aqui as imagens da pequena MADDIE.
Quem tiver algum sinal desta menina (que vai aparecer certamente) ligue para um destes números de telefone: 289 884 500, 282 405 400, 218 641 000, 112 Com certeza a MADDIE vai aparecer.. se todos nós nos juntarmos na suaprocura.. e no conhecimento ao povo da sua linda carinha.. Não fiquem indiferentes.

Democracia/Liberdades, continuação

Meu caro PikaMyolos, folgo em saber que comungas dos meus ideais.

A opressão condiciona a liberdade, ainda que seja em nome desta, logo, uma é o oposto da outra e a forma de a combater, é pela educação e nunca foi minha intenção sugerir mandar os opressores, ou os que pensam diferente, para campos de concentração. Essa é a prática deles, por isso dizia que não bastava apregoar a democracia sem demonstrar os seus benefícios, em relação aos sistemas que se lhe opõem. A democracia impõe-se pela educação contra a ignorância e a Liberdade começa pela liberdade de pensamento e também nos dá a liberdade até de não crer ser livre.
Não comungo com aqueles que querem impor a Democracia a quem não a quer. Não sou partidário do Sr. Bush porque a democracia diz respeito ao povo de a crer ou não e como dizia em relação à Liberdade, também há várias democracias e nem sempre os que mais a apregoam são o seu melhor exemplo. A democracia é como o amor, quem ama não o diz, demonstra-o.

Pelo teu comentário, parecia que eu estava contra a Democracia, pelo contrário, em falta de melhor não temos alternativa, mas nada nos impede de tentar construir um sistema melhor, ainda que tenha a certeza de nunca se conseguir um que seja perfeito, ou não fosse ele criada pelo Homem, que pela mesma razão, está em permanente evolução.

Quanto aos de Santa Comba, têm todo o direito de terem um pensamento diverso, até porque não há só uma verdade, há várias mas, o que me preocupa são os que não são livres de pensar por eles e que de uma forma dogmática, deixam que outros façam deles “carneiros“.

sábado, 28 de abril de 2007

Democracia/Liberdades



Meu Caro PikaMyolos, por aqui começo a reconstrução.

Uma Sociedade livre e justa não se constrói coabitando com os que a ela se opõem (a Liberdade de uns começa onde acaba a de outros). A liberdade conquista-se contra a opressão em todas as suas frentes.
Há duas liberdades, a liberdade das minorias dominantes, de oprimir, explorar e ditar as regras que lhes são favoráveis na manutenção dessas “liberdades” e a Liberdade de se libertar dessa “liberdade”, a Liberdade de ser Livre, Livre até de querer ser oprimido.

Em Abril de 74, objectivou-se a libertação do País das garras do Estado Novo, pela instauração das liberdades, sob a égide da Democracia, que enferma de muitas limitações mas, em falta de melhor, não temos outra alternativa senão construir uma Sociedade mais Fraterna, mais Justa, onde todos sejam iguais e não uns mais iguais que outros, com o respeito pelas diferenças em todas as suas vertentes, sem complexos do passado, passado este que, quando contrário às premissas de uma nova Sociedade mais evoluída, deve fazer parte da memória colectiva, para que não se venha a repetir. Uma sociedade no sentido da descoberta de um Estado melhor, em alternativa à Democracia. Por uma nova classe de políticos, livres e não medíocres, subjugados a interesses económicos de minorias dominantes e mesquinhas, de quem são meras marionetas, por nós eleitos, onde possamos também ser governados por tecnocratas, sábios reconhecidos pelas bases, que é o Povo e que governem em direcção dos interesses destes, por uma melhor forma de vida, digna, com Saúde, Educação (cujo pecado original é a ignorância) e Justiça, onde não haja lugar para corrupção, tráfico, lavagens, etc., pela defesa do ecossistema, no cumprimento do Protocolo de Quioto, pela preservação de um futuro habitável, para que não sejam os próximos a pagar pelos nossos erros, causados pela ganância desenfreada de poderes instituídos, onde o lema é “quem vier atrás, que feche a porta”. Para isso, já basta o “pecado original” de andarem a pagar as dívidas do Adão e Eva mitológico (mas como dizia a minha avó, “presunção e água nas bentas, cada um leva a que quer”), não precisam que lhes criem mais credores.

Deparamo-nos hoje com um fenómeno crescente por toda a Europa, de movimentos de extrema direita e até nazis, muitas vezes lideradas por indivíduos que mais parecem “rotweiller’s” a comandarem pobres coitados, menos informados que, “de uma forma folclórica” vão aderindo a estes movimentos, fruto de uma sociedade consumista e egoísta, desprovida de valores humanos, que não consegue por termo à exclusão social e encurtar o distanciamento que separa uma pequena percentagem dos muito ricos, de uma grande percentagem dos muito pobres e de que Portugal não está imune. Muitas vezes, esquecemo-nos que o planeta é de todos os que o habitam e não de alguns que ainda se sentem no direito de dar algumas esmolas aos outros, esquecendo-se do que alguém disse, “quando se dá uma esmola, não se está a fazer mais que devolver parte do que lhe pertence” e eu acrescento, do que lhe foi sonegado.

Vemos o que se está a passar em Santa Comba onde pessoas, infelizmente, com um grande défice cultural, em que a ignorância e o desconhecimento do passado é terreno fértil aos oportunistas, os tais “rotweiller’s” que de uma forma populista os manipulam, conseguindo incutir-lhes uma “raiva” primária, anti-democrática, com bases ocultas de racismo e xenofobia.
Se o Estado Democrático tivesse já criado um museu sério e isento, onde se perpetuasse a memória do que foi o Estado Novo e a sua face visível, Salazar e se preocupasse em incluir no curriculum escolar as razões da sua destituição, evitando o que verificamos hoje quando perguntamos a alguém que nasceu depois de 1974 o que foi o 25 de Abril e obtemos respostas tão disparatadas, fruto de uma ignorância inaceitável, nesta era da globalização da informação, onde as recentes gerações sabem tanto de tudo a nível planetário e tão pouco do passado recente (histórico), no espaço tão reduzido do seu País no contexto mundial, haveria agora pretexto para querem criar um museu com objectivos sectários e tendenciosos em Santa Comba, a servirem interesses duvidosos, com fins escusos bem definidos?
Então onde é que está o erro?

Teria sido evitado se nos tivéssemos libertado dos complexos do passado e não ficássemos a apregoar e só, os benefícios da democracia, àqueles a quem queremos fazer passar a mensagem, sem uma referência contrária, sendo mais pedagógicos, não com programas absurdos de uma televisão pública como o concurso dos “Grandes Portugueses”, como se fosse possível desenquadrar o vulto da sua época, tempo e espaço, o que ainda veio a acrescentar mais achas a esta fogueira que precisa é de água mas, demonstrando que para um efeito há sempre uma causa e que neste caso a causa é a ditadura do Estado Novo, na figura de Salazar e o efeito, a implantação da democracia nos valores da Liberdade, Liberdade esta de que se servem os que lhe são contra, para se manifestarem.


É necessário acabar com a política de ocultar o que de momento nos interessa em favor daquilo que no momento é mediático.

É preciso credibilizar a Democracia contra a ditadura democrática, com personagens caricatas que chegam a rondar a imbecilidade como o João Jardim na Madeira, sem o mínimo respeito pelas instituições democráticas e com algumas práticas a que já assistimos no passado Estado Novo, ministros prepotentes e arrogantes sem o mínimo respeito por aqueles que os elegem. Só possível com uma nova classe de políticos, que não façam falsas promessas, que respeitem eleitores, não os considerando acéfalos, para que, como eu e outros que já não acreditam nos políticos, nem na política e quase descrentes na Democracia, se vêem obrigados, para não faltarem ao seu dever cívico, a votar em pequenos partidos sem pretensões a governar (ainda que não estejam totalmente de acordo com os seus programas ideológicos), para assim verem vozes opositoras aos titulares do poder (no mesmo círculo de interesses), que se vão alternando e que por força da razão, não se podem hostilizar a não ser nos mínimos para salvarem as aparências, para que os seus eleitores não se sintam defraudados, apostando assim na ingenuidade e amnésia colectiva (os tais “pobres de espírito de quem é o reino dos céus”), que ainda há salvadores da pátria e que os culpados são os anteriores, e assim vão levando a água ao seu “moinho”.

Liberdade sim, mas até para a liberdade há limites que a impedem de se pôr em causa a si própria. Queremos a Liberdade de sermos livres, até de casos/folhetins de Independentes, Modernas e outras que ainda hão de vir.

Para isso, devem continuar a contribuir instituições de Homens Livres, que com todo o seu passado, contribuíram para as causas da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Continua ... Autarcas/corrupção e favorecimentos...

quinta-feira, 26 de abril de 2007

EM CONSTRUÇÃO


Apelo à vossa paciência, que em breve estarei com a minha bem conhecida irreverência, no pleno exercício da cidadania, na defesa dos valores universais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, da Ética e Estética, contra todas as injustiças sociais.

Até breve.