segunda-feira, 18 de junho de 2007

O fim do comunismo

O ano de 1968 marca, em todo o mundo, o início da transição liberal, que virá a conhecer a maior eclosão em 1989, com o desmoronamento dos sistemas de tipo soviético. E é isso que escapa, de forma incompreensível, à análise da direita. Os delírios maoístas (depressa esfumados) fazem parte da superfície das coisas e não devem induzir cm erro quanto aos elementos de fundo da mudança. O capitalismo que os dirigentes de 1968 criticavam nada tem que ver com o actual e o comunismo contra o qual se mobilizavam cm Praga ou na Polónia já não existe. Há quem se sirva do terrorismo europeu de extrema-esquerda dos anos 1970 para desacreditar a herança de 1968. É verdade que uma franja da extrema-esquerda encarava a possibilidade de recurso à violência, mas tratava-se de um sector residual, sobretudo em França. A maioria dos actores do Maio de 1968 integrou-se no jogo democrático. Só em Itália e, em menor escala, na Alemanha, o terrorismo marcou uma geração. Mas aí surgem outras complexidades, como o que alguns designam por «matrice» católico-comunista, uma «over-dose» de desejo de verdade. Europa, o terrorismo mais persistente não tem que ver com os valores de 1968: é o terrorismo nacionalista da ETA ou do IRA.
Ao enterrar 1968, que valores quer Sárközy restaurar? Com a forma de entender e viver o mundo que 1968 deitou abaixo, Sárközy nunca poderia ter sido Presidente, pois era impensável que um filho de imigrantes governasse a França. A sua família não teria entrado no Eliseu, porque a moral da época não teria tolerado que a «primeira família» do país fosse um casal com cinco filhos de três casamentos e de quatro progenitores, constantemente à beira do divórcio. Ségolène Royal não teria sido sua adversária, pois era impossível uma mulher aspirar à Presidência da República. E por aí fora. As bases da actual sociedade do individualismo e da autonomia do sujeito foram lançadas nesse ano. Estava em curso a transição liberal. Esta fez o seu caminho, marcado por orientações muito afastadas dos espíritos diversos que animaram 1968. Porque 1968 não era um projecto político, antes um protesto. Rompeu amarras com a cultura, a moral e os hábitos das gerações precedentes, condição indispensável para aparelhar o navio da nova modernidade.
Porque procurou Sárközy, então, apresentar-se como coveiro de 1968? Porque isso lhe permitiu vincar aquilo a que Pascal Bruckner chama a tentação da inocência, essa tendência para a recusa da responsabilidade que se esconde por trás de uma certa negação do mal ou a reticência em reconhecê-lo.

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