Com a marca de verdade derradeira e universal tem sido inculcada, de um modo sobremaneira crasso, a ideia da relatividade das concepções do mundo e das opções políticas. Direita e esquerda seriam escolhas tão inócuas e indolores como a pertença a um clube desportivo ou colectividade de bairro, questão de colorido, proximidade de vizinhança. A tese não é nova e ressalta sempre que haja conveniência e oportunidade. Repete-a agora, até à náusea, inserida num esquema aprendido mais ou menos de cor, de mistura com um rol de trivialidades, um conjunto de criaturas formatadas, que lembram a expressão de Manuel da Fonseca "jovens velhinhos". Campeia por aí um coro de adolescentes iletrados, possessos de Adam Smith, que lisonjeiam os patrões ("criadores de riqueza") por julgarem que a vida tem de ser mesmo assim. De há uns tempos para cá, instalou-se este fenómeno deprimente do jornalismo de libré. Estabeleceu-se uma espécie de tirania da frase em que toda a gente se sente vinculada a repetir as mesmíssimas coisas. A direita é precisamente quem tem interesse em que se mantenha a indiferenciação. Joga na indistinção. Sente-se absolvida, desimpedida e desenfiada. Um facto encobre e justifica o outro. As chacinas nazis na Segunda Grande Guerra, por exemplo, teriam equivalência nos bombardeamentos maciços dos aliados em território alemão, Auschwitz, no Gulag. Todos quites. Tudo igual. Há muitas outras equiparações do género, complementadas com a ideia cínica de que são os vencedores que escrevem a História, e, no fundo, revolução e contra-revolução, miguelismo e liberalismo, inquisição e Reforma, fascismo e comunismo, democracia e ditadura, cabe tudo no mesmo saco. O homem seria por natureza desesperadamente ruim, e a história aí estaria a demonstrar que não há nada melhor que um bom capitalista.Em boa verdade, usamos “esquerda” e “direita” por comodidade de conversação. Hoje pouco importa a disposição na topografia da Assembleia Constituinte de 1789 ou o voto sobre a decapitação do rei. Entre as noções, há turbulências de fronteira, e, dentro delas, equívocos, contradições, paradoxos. Fora dum contexto é sempre difícil dizer se tal ou tal medida isolada é “de direita” ou “de esquerda”. Em muitas situações a qualificação das políticas torna-se tremida ou incómoda. A questão parece resolvida quando se opta por uma explicação simples e reveladora: a luta de classes, por exemplo. Tudo o que favorecesse, em maior ou menor grau, as posições da classe operária e dos seus aliados, na gigantesca tarefa de transformação revolucionária, seria de esquerda. Tudo o que a contrariasse seria de direita. Mas o critério dos interesses da classe operária não resistiu à prova do pudim, que segundo um velho provérbio inglês, muito citado por Marx e Engels, consiste em que se come. São comprováveis antagonismos de classe, desde os mais remotos tempos históricos. Os conflitos sociais da república romana pela posse da terra, em que os posicionamentos de classe, a avaliar pelo que relatam os especialistas, eram duma clareza paradigmática, não deixam de ser interessantes. Mas a teoria da luta de classes não resolve a destrinça entre esquerda e direita, nem creio que a distinção se opere no campo dos abstractos e hipotéticos interesses sociais. Procurar hoje saber se a conspiração de Catilina era, avant Ia lettre, de direita ou de esquerda, progressista ou reaccionária, é um absurdo escolástico muito próprio de algumas infindáveis discussões dos anos sessenta do século XX. Se aplicarmos os critérios à contemporaneidade, também surgem imediatamente as perguntas incómodas e arrasadoras. Os Pol-Pot, os Ceauscscu, os Kim il Sun, e por aí fora. Às tantas estamos num enredo ptolemaico de explicações, contra-explicações e explicações das explicações.
Por outro lado, uma identificação pelo lado luminoso da ética, ou pelos bons sentimentos, não parece levar muito longe. Nos meios que frequento, tende-se a identificar a esquerda com aquele conjunto de atitudes e comportamentos que cabem sob a genérica designação inglesa de fair-play, originária, aliás, de ambientes que de esquerda nada tinham. Aqui há uns anos, com poucas excepções, as opiniões literárias de pessoas consideradas de direita excluíam os autores portugueses, apenas por eles terem fama de «ideias avançadas», como então ridiculamente se dizia. O sectarismo de direita sempre foi, de uma forma geral, mais feroz, descarado e prepotente que o de esquerda. Mas não se pode negar que há excepções: em gente assumida e tradicionalmente de direita também existe, por vezes, um forte apego à decência e mesmo uma preocupação de justiça merecedoras de nota. Adiante voltarei a este particular.
Ultimamente, têm-se visto pessoas meritórias, de trato civilizado, reconhecida rectidão e provados sentimentos democráticos a alinhar em abonações a um Presidente americano do Texas, primitivo, ultra-reaccionário, muito próximo da sua própria caricatura, e que vem sendo, pelo comportamento e visão do mundo, a negação da própria inspiração fundadora dos Estados Unidos. Este americanismo básico, de muito boa boca, pronto a tudo, faz lembrar o pró-sovietismo acrílico doutros tempos.
Chega a avalizar a violência cega, a mentira e a tortura e alinhar num irracionalismo de bandeira completamente alheio a princípios. Confundir George W. Bush, aquela manifesta incompetência e postura fachista, com os Estados Unidos é uma agressão ao próprio povo americano e a todos os que gostam da América. A resistência à política imperial de Bush e da mal recomendada trupe que ocupa hoje o poder na América é uma homenagem àquilo que há de melhor nos Estados Unidos. Não é antiamericanismo. E o contrário disso.
Eu não confundiria a deriva desta gente respeitável com uma moda direitista que anda por aí à desfilada e que é muito semelhante àquilo a que em tempos se chamou, do lado contrário, a “esquerda festiva”. Agora é a direita festiva. Bebem-se uns copos, escrevem-se umas “artigalhadas”, confraterniza-se, e está-se pronto para o lance seguinte, que pode ser de roupagem direitista ou não, conforme assoprarem os ventos do tempo. Em casos mais lamentáveis, são manifestas a lavagem do cérebro, a hipnose pela propaganda, ou, eventualmente, motivações ainda menos desculpáveis. Mas também aparece aqui e além um ressentimento desiludido contra a esquerda, em alguns casos merecedor de compreensão.
Tem de se admitir que o folclore da esquerda está repleto de tolices, de inverdades e de estereótipos irritantes. Isto à revelia do livre exame e do exercício da crítica que, a meu ver, são, precisamente, o ponto forte da esquerda. Há, na área, quem reaja por reflexos condicionados ou não seja capaz de mais do que seguir uma cartilha, ou um catálogo prefixo de comportamentos. Um pouco como nos prosélitos da propaganda americana, dizem o que esperam que digam, e respondem com “ideias de esquerda” ou “concepções de esquerda” prontas a sair. O problema é que, não sendo sempre possível chegar à verdade (os antigos figuravam-na no fundo de um poço) o pensamento de esquerda caracteriza-se por não aceitar mentiras. A partir do momento em que se mente, tudo isto deixa de valer a pena.
Estou a lembrar-me da fábula do homem primitivo, em comunhão com a natureza, a deliberar democraticamente à sombra de uma árvore frondosa, desconhecendo a escravatura e a guerra, vivendo em bucólica harmonia. Isto contrasta com os relatos - que não há razão nenhuma para supormos inventados - que falam de chacinas constantes, de crânios empilhados em pirâmide, de rituais de antropofagia. A condenação do colonialismo não obriga à ocultação da hediondez do mundo que os europeus foram encontrar.
Agora insiste-se em fazer derivar o terrorismo de condições sociais degradadas que o produziriam, numa relação de causa e efeito. Ou como contrapartida da arrogância ocidental, numa espécie de “excesso de legítima defesa”, como diriam os juristas, de boa gente desinquietada pelo imperialismo ianque. Isto é falso e perigoso. E desistir de todas as tentativas, não digo para compreender, mas para enfrentar o mundo de hoje e as ameaças que impendem sobre a Humanidade. Ora trata-se de uma coisa diferente, que não vem mapeada nos manuais nem nos catálogos. E o atraso, é o primitivismo, é uma vandalização em grande escala, é o fanatismo, é o Mal. Nós, ditos ocidentais, não temos culpa de que exista o Mal.
Este masoquismo auto-sacrificial em que se comprazem os nossos contemporâneos, como se fossem culpados da História (e os outros não), representa uma demissão face à ameaça e uma submissão à mentira que obviamente incomodam a gente mais atenta e municiam a argumentação da direita.
E é preciso admitir, por outro lado, que a esquerda também transporta muitas misérias. Todas as chamadas utopias falharam, umas caricatamente, nas bem intencionadas experiências oitocentistas, outras tragicamente, nos chamados socialismos reais, com a implantação do terror, da miséria e da humilhação, sobre populações inteiras. É um lastro sinistro. Uma posição minimamente honesta não pode ignorar os milhões de mortos provocados pelos estalinismos, pelos maoismos e por engenharias sociais totalitárias. É perfeitamente descabido e ofensivo para as vítimas entrar na guerra dos números e discutir a prioridade macabra de quem é que matou mais, se a esquerda se a direita. Acho que, pura e simplesmente, não se matam pessoas. E este é um dos princípios que me recuso sequer a discutir.
Sinto-me revoltado, até pela minha própria ingenuidade em certo período. De pouco me serve reconhecer que não houve, até agora, obra humana, por mais generosa, que não tenha sido desde logo impregnada pelo mal. Atentem os cristãos nos crimes e homicídios que pontuaram toda a história da Igreja. É a inquisição a essência do catolicismo romano? E desculpável? Quando ouço um católico a justificar a Inquisição com os argumentos da época ou da pressão do poder real, penso sempre: “Este estava prontinho para outra”. E quando ouço alguém a minimizar os horrores do estalinismo, ocorre-me logo: “o que é que este me faria a mim?”
É preciso assumir claramente estas misérias, sem nenhuma espécie de ambiguidade ou falácia. A esquerda também tem este horrendo contrapeso.
Os homens têm evoluído contra o que é natural e são sistematicamente traídos pela emergência do natural. O natural é o medo, a humilhação e sobretudo, a morte. O totalitarismo e a opressão são naturais. O estado democrático não é natural. O chamado modelo social europeu não é natural. Implicou um tremendo esforço de construção e de racionalização e a superação difícil, sempre problemática, fase após fase, do egoísmo primitivo e de certas relações de submissão.
A primeira vista, hoje partilhamos todos os mesmos princípios e concordamos nos mesmos pontos essenciais. Somos todos civilizados. Os tempos são aparentemente de apaziguamento e de indulgência recíproca. Mas será mesmo assim? Como é, quando chegam os momentos decisivos? O que acontecerá quando houver um desequilíbrio, uma ruptura? Contra que é que a direita se tem batido? A direita esteve contra o sufrágio universal, contra a liberdade de imprensa, contra a escola laica, contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de manifestação, contra o livre-pensamento, contra o divórcio, contra a igualdade das mulheres, contra o preservativo, contra a pílula, contra a descolonização, contra o abolicionismo, contra o fim da pena de morte, contra os sindicatos, contra o movimento operário, em suma, contra tudo o que assinalava, de uma forma ou doutra, progresso e bem-estar.
Em Portugal a direita assume os dias hediondos do miguelismo, a postura retrógrada da hierarquia católica durante todo o século XIX, os cinquenta anos de fascismo, a miséria, o atraso, a violência, o analfabetismo. É o lado negro e torpe da nossa História recente. E isto para não ir mais para trás e para não abusar das esquerdas/direitas, antes delas terem sido usadas na acepção progresso/reacção.
Passando pelos direitismos circunstanciais, em que falei acima, voláteis e transitórios, estou profundamente convencido de que para a direita há uma espécie de pólo de atracção, uma querença primitiva e ancestral, a apontar para a exploração, a violência e a humilhação dos outros. Há a preservação titular ou lacaia de um núcleo de interesses, a que a ideia de bem comum é estranha. Há a aposta, por sistema, no preconceito, ainda que isso implique a mentira e a mistificação.
Vêm-me logo à memória a polémica “Eu e o Clero”, o “caso Dreyfus”, o governo traidor de Vichy.
Aquilo que na esquerda é uma perversão, um abismo, na direita é um rumo e uma componente estruturante. A direita carrega a sua própria natureza, a esquerda tem muitas vezes de suportar o fardo da natureza do Outro. Nas situações limite, na hora da verdade, as coisas clarificam-se.
Por isso é que me é difícil evitar um sobressalto de estranheza quando ouço alguém, que respeito ou estimo, dizer, a qualquer propósito, que é de direita. Parece-me sempre a incómoda confissão de uma anomalia, como se essa pessoa estivesse a despojar-se de si, a ostentar defeitos, deformidades, mazelas, com um exibicionismo de pobre de província de outrora, em vez de os sepultar no imo, sem bafejos de luz, nem exibições irremediáveis. Há relances dum rasgar as roupas, dum suspender-se do pelourinho, dum bater cavo no peito, duma humilhação de rojar o pó, que desconcertam na altura em que nos pomos a julgar. Fica subliminar, indefinida e pesada, uma compaixão muito condoída, uma tristeza pelo outro, uma vontade de não ter presenciado, de ter ouvido ou lido mal, de que ele tivesse dito antes uma outra coisa. Fui formado num sistema de rejeições e desprezos que dispõe e hierarquiza valores que não aceitam sem rebate ou dó as personificações infernais.
Há algumas pessoas estimáveis (por razões não apenas do coração) que se prestam a esta identificação, com um despacho nem sempre desprovido de candura. Apetece-me desmenti-las, autoritariamente: “não, você não pode ser de direita, você é um poço de decência, não pode dizer uma coisa dessas”.
E a estima fica, apesar de tudo, intacta. Eu posso dar-me ao luxo do fair-play. Sou de esquerda…
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