Nicolas Sárközy anunciou, durante a campanha eleitoral (para as presidenciais francesas de 6 de Maio), o enterro do Maio de 1968. Uma vez chegado à Presidência da República, porém, nem sequer se deu ao trabalho de organizar as exéquias. Pelo contrário, para dar credibilidade às suas promessas de abertura, confiou a política externa da França ao activista Bernard Kouchner, a personalidade mais popular da esquerda, que construiu a sua liderança pessoal com materiais vindos dos passeios calcetados do Quartier Latin. Com a comemoração do 40º aniversário do Maio de 1968, no próximo ano, antevê-se uma avalancha de mitologia de demolição e contra-mitologia barata. Antes que tal aconteça, vou tentar responder a duas questões: porque é que Sárközy faz uma análise errónea de 1968? E porque se serviu disso durante a campanha eleitoral?
Sárközy comete dois erros. O primeiro, muito típico dos franceses, é esquecer que, em Maio de 1968, as coisas não se passaram apenas em França. O segundo, muito próprio da direita, é não perceber que o capitalismo, pela sua capacidade de mutação (uma das razões para a sua superioridade em relação ao comunismo), e a direita liberal foram os principais beneficiários do Maio de 1968. Em 1968, estalaram revoltas por todo o mundo, com uma universalidade inédita. O talento comprovado dos franceses para lançarem os seus produtos no mercado dos artigos políticos culturais não nos deve fazer esquecer o resto: a revolta dos universitários americanos em Berkeley, a dos alemães em Berlim, a dos operários polacos, a dos checos na Primavera de Praga, violentamente esmagada pelas tropas do Pacto de Varsóvia, a das classes populares mexicanas, sangrentamente reprimida na Praça das Três Culturas da Cidade do México, a dos operários e estudantes no Outono «caldo» italiano ou a dos jovens de Tóquio e Seul.
Apesar das enormes diferenças, todos esses movimentos tinham um ponto em comum: a luta contra os espartilhos autoritários, políticos, mas também culturais e morais, que oprimiam esses países. Eram movimentos de ruptura com sistemas de crenças e costumes obsoletos, que impendiam a eclosão da nova modernidade. Daí o seu carácter libertário, contra a forma de agir da ordem estabelecida. O discurso era anticapitalista no Ocidente, e anticomunista no Leste, mas, por toda a parte, profundamente anti-soviético. É um elemento chave de 1968. Eis porque incomodava tanto os partidos comunistas europeus, que começavam a perder a hegemonia na esquerda. Não tem nada de espantoso que uma crítica radical do totalitarismo soviético, como a dos «novos filósofos» franceses, tenha emergido dos escombros de 1968.
Sárközy comete dois erros. O primeiro, muito típico dos franceses, é esquecer que, em Maio de 1968, as coisas não se passaram apenas em França. O segundo, muito próprio da direita, é não perceber que o capitalismo, pela sua capacidade de mutação (uma das razões para a sua superioridade em relação ao comunismo), e a direita liberal foram os principais beneficiários do Maio de 1968. Em 1968, estalaram revoltas por todo o mundo, com uma universalidade inédita. O talento comprovado dos franceses para lançarem os seus produtos no mercado dos artigos políticos culturais não nos deve fazer esquecer o resto: a revolta dos universitários americanos em Berkeley, a dos alemães em Berlim, a dos operários polacos, a dos checos na Primavera de Praga, violentamente esmagada pelas tropas do Pacto de Varsóvia, a das classes populares mexicanas, sangrentamente reprimida na Praça das Três Culturas da Cidade do México, a dos operários e estudantes no Outono «caldo» italiano ou a dos jovens de Tóquio e Seul.
Apesar das enormes diferenças, todos esses movimentos tinham um ponto em comum: a luta contra os espartilhos autoritários, políticos, mas também culturais e morais, que oprimiam esses países. Eram movimentos de ruptura com sistemas de crenças e costumes obsoletos, que impendiam a eclosão da nova modernidade. Daí o seu carácter libertário, contra a forma de agir da ordem estabelecida. O discurso era anticapitalista no Ocidente, e anticomunista no Leste, mas, por toda a parte, profundamente anti-soviético. É um elemento chave de 1968. Eis porque incomodava tanto os partidos comunistas europeus, que começavam a perder a hegemonia na esquerda. Não tem nada de espantoso que uma crítica radical do totalitarismo soviético, como a dos «novos filósofos» franceses, tenha emergido dos escombros de 1968.
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