Sárközy apresentou-se como o ponta-de-lança de um processo de ruptura. "Revolução" seria um termo excessivo, que poderia tê-lo associado à revolução conservadora e que o teria colocado num paralelo ridículo com a revolução de 1968. "Reforma" era insuficiente para um candidato que procurava relegar para uma loja de antiguidades do século passado o reformismo dos seus adversários sociais-democratas. A solução era a ruptura. A ruptura é menos do que a revolução e mais do que a reforma: requer uma mudança das mentalidades. Para explicar a mudança que propunha, Sárközy tinha de definir a mentalidade a ultrapassar.
Uma vez que o seu território de eleição se encontra à direita, era mais cómodo para ele desenterrar na mitologia da esquerda o alvo da sua ruptura moral. Era essa a função do Maio de 1968 no discurso de Sárközy. F. se essa referência lhe foi útil, foi precisamente porque é uma tradição muito amplamente assimilada. A formulação da acusação interpelava toda a gente, mas permitia à direita não sentir que também era parcialmente visada. Ao acusar o Maio de 1968 até dos excessos do capitalismo selvagem, Sárközy reconhece que foi aquele movimento que deu origem à transição liberal, embora esta tenha, posteriormente, atingido proporções jamais sonhadas pelos que procuravam a praia debaixo das pedras da calçada. Imputar ao Maio de 1968 até os mais flagrantes excessos do capitalismo actual é, também, um álibi para o dia em que Sárközy se vergará à vontade dos seus companheiros de iate. Enterrar 1968 é um exercício inútil, porque já está feito há muito. Se for necessário organizar o funeral, façamo-lo, mas sem mitos nem artimanhas.
Uma vez que o seu território de eleição se encontra à direita, era mais cómodo para ele desenterrar na mitologia da esquerda o alvo da sua ruptura moral. Era essa a função do Maio de 1968 no discurso de Sárközy. F. se essa referência lhe foi útil, foi precisamente porque é uma tradição muito amplamente assimilada. A formulação da acusação interpelava toda a gente, mas permitia à direita não sentir que também era parcialmente visada. Ao acusar o Maio de 1968 até dos excessos do capitalismo selvagem, Sárközy reconhece que foi aquele movimento que deu origem à transição liberal, embora esta tenha, posteriormente, atingido proporções jamais sonhadas pelos que procuravam a praia debaixo das pedras da calçada. Imputar ao Maio de 1968 até os mais flagrantes excessos do capitalismo actual é, também, um álibi para o dia em que Sárközy se vergará à vontade dos seus companheiros de iate. Enterrar 1968 é um exercício inútil, porque já está feito há muito. Se for necessário organizar o funeral, façamo-lo, mas sem mitos nem artimanhas.
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