terça-feira, 19 de junho de 2007

Entre revolução e reforma

Sárközy apresentou-se como o ponta-de-lança de um processo de ruptura. "Revolução" seria um termo excessivo, que poderia tê-lo associado à revolução conservadora e que o teria colocado num paralelo ridículo com a revolução de 1968. "Reforma" era insuficiente para um candidato que procurava relegar para uma loja de antiguidades do século passado o reformismo dos seus adversários sociais-democratas. A solução era a ruptura. A ruptura é menos do que a revolução e mais do que a reforma: requer uma mudança das mentalidades. Para explicar a mudança que propunha, Sárközy tinha de definir a mentalidade a ultrapassar.
Uma vez que o seu território de eleição se encontra à direita, era mais cómodo para ele desenterrar na mitologia da esquerda o alvo da sua ruptura moral. Era essa a função do Maio de 1968 no discurso de Sárközy. F. se essa referência lhe foi útil, foi precisamente porque é uma tradição muito amplamente assimilada. A formulação da acusação interpelava toda a gente, mas permitia à direita não sentir que também era parcialmente visada. Ao acusar o Maio de 1968 até dos excessos do capitalismo selvagem, Sárközy reconhece que foi aquele movimento que deu origem à transição liberal, embora esta tenha, posteriormente, atingido proporções jamais sonhadas pelos que procuravam a praia debaixo das pedras da calçada. Imputar ao Maio de 1968 até os mais flagrantes excessos do capitalismo actual é, também, um álibi para o dia em que Sárközy se vergará à vontade dos seus companheiros de iate. Enterrar 1968 é um exercício inútil, porque já está feito há muito. Se for necessário organizar o funeral, façamo-lo, mas sem mitos nem artimanhas.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

O fim do comunismo

O ano de 1968 marca, em todo o mundo, o início da transição liberal, que virá a conhecer a maior eclosão em 1989, com o desmoronamento dos sistemas de tipo soviético. E é isso que escapa, de forma incompreensível, à análise da direita. Os delírios maoístas (depressa esfumados) fazem parte da superfície das coisas e não devem induzir cm erro quanto aos elementos de fundo da mudança. O capitalismo que os dirigentes de 1968 criticavam nada tem que ver com o actual e o comunismo contra o qual se mobilizavam cm Praga ou na Polónia já não existe. Há quem se sirva do terrorismo europeu de extrema-esquerda dos anos 1970 para desacreditar a herança de 1968. É verdade que uma franja da extrema-esquerda encarava a possibilidade de recurso à violência, mas tratava-se de um sector residual, sobretudo em França. A maioria dos actores do Maio de 1968 integrou-se no jogo democrático. Só em Itália e, em menor escala, na Alemanha, o terrorismo marcou uma geração. Mas aí surgem outras complexidades, como o que alguns designam por «matrice» católico-comunista, uma «over-dose» de desejo de verdade. Europa, o terrorismo mais persistente não tem que ver com os valores de 1968: é o terrorismo nacionalista da ETA ou do IRA.
Ao enterrar 1968, que valores quer Sárközy restaurar? Com a forma de entender e viver o mundo que 1968 deitou abaixo, Sárközy nunca poderia ter sido Presidente, pois era impensável que um filho de imigrantes governasse a França. A sua família não teria entrado no Eliseu, porque a moral da época não teria tolerado que a «primeira família» do país fosse um casal com cinco filhos de três casamentos e de quatro progenitores, constantemente à beira do divórcio. Ségolène Royal não teria sido sua adversária, pois era impossível uma mulher aspirar à Presidência da República. E por aí fora. As bases da actual sociedade do individualismo e da autonomia do sujeito foram lançadas nesse ano. Estava em curso a transição liberal. Esta fez o seu caminho, marcado por orientações muito afastadas dos espíritos diversos que animaram 1968. Porque 1968 não era um projecto político, antes um protesto. Rompeu amarras com a cultura, a moral e os hábitos das gerações precedentes, condição indispensável para aparelhar o navio da nova modernidade.
Porque procurou Sárközy, então, apresentar-se como coveiro de 1968? Porque isso lhe permitiu vincar aquilo a que Pascal Bruckner chama a tentação da inocência, essa tendência para a recusa da responsabilidade que se esconde por trás de uma certa negação do mal ou a reticência em reconhecê-lo.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

O Maio de 68...

Nicolas Sárközy anunciou, durante a campanha eleitoral (para as presidenciais francesas de 6 de Maio), o enterro do Maio de 1968. Uma vez chegado à Presidência da República, porém, nem sequer se deu ao trabalho de organizar as exéquias. Pelo contrário, para dar credibilidade às suas promessas de abertura, confiou a política externa da França ao activista Bernard Kouchner, a personalidade mais popular da esquerda, que construiu a sua liderança pessoal com materiais vindos dos passeios calcetados do Quartier Latin. Com a comemoração do 40º aniversário do Maio de 1968, no próximo ano, antevê-se uma avalancha de mitologia de demolição e contra-mitologia barata. Antes que tal aconteça, vou tentar responder a duas questões: porque é que Sárközy faz uma análise errónea de 1968? E porque se serviu disso durante a campanha eleitoral?
Sárközy comete dois erros. O primeiro, muito típico dos franceses, é esquecer que, em Maio de 1968, as coisas não se passaram apenas em França. O segundo, muito próprio da direita, é não perceber que o capitalismo, pela sua capacidade de mutação (uma das razões para a sua superioridade em relação ao comunismo), e a direita liberal foram os principais beneficiários do Maio de 1968. Em 1968, estalaram revoltas por todo o mundo, com uma universalidade inédita. O talento comprovado dos franceses para lançarem os seus produtos no mercado dos artigos políticos culturais não nos deve fazer esquecer o resto: a revolta dos universitários americanos em Berkeley, a dos alemães em Berlim, a dos operários polacos, a dos checos na Primavera de Praga, violentamente esmagada pelas tropas do Pacto de Varsóvia, a das classes populares mexicanas, sangrentamente reprimida na Praça das Três Culturas da Cidade do México, a dos operários e estudantes no Outono «caldo» italiano ou a dos jovens de Tóquio e Seul.
Apesar das enormes diferenças, todos esses movimentos tinham um ponto em comum: a luta contra os espartilhos autoritários, políticos, mas também culturais e morais, que oprimiam esses países. Eram movimentos de ruptura com sistemas de crenças e costumes obsoletos, que impendiam a eclosão da nova modernidade. Daí o seu carácter libertário, contra a forma de agir da ordem estabelecida. O discurso era anticapitalista no Ocidente, e anticomunista no Leste, mas, por toda a parte, profundamente anti-soviético. É um elemento chave de 1968. Eis porque incomodava tanto os partidos comunistas europeus, que começavam a perder a hegemonia na esquerda. Não tem nada de espantoso que uma crítica radical do totalitarismo soviético, como a dos «novos filósofos» franceses, tenha emergido dos escombros de 1968.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O verdadeiro catecismo

Ama a humanidade. Escuta a voz da natureza, que te brada: todos os homens são iguais, todos constituem uma única família. Tem sempre presente que não só és responsável pelo mal que fizeres, mas pelo bem que deixares de fazer. Faz o bem pelo amor do próprio bem. O Verdadeiro culto consiste nos bons costumes e na prática das virtudes. Escuta sempre a voz da consciência: é o teu juiz. Trata de te conhecer, corrige os teus defeitos e vence as tuas paixões. Nos teus actos mais secretos supõe sempre que tens todo o mundo por testemunha. Ama os bons, anima os fracos, foge dos maus, mas não odeies ninguém. Fala sobriamente com os superiores, prudentemente com os iguais, abertamente com os amigos, benevolamente com os inferiores, leal e sinceramente com todos. Diz a verdade, pratica a justiça, procede com rectidão. Não lisonjeies nunca, é uma traição. Se alguém te lisonjear, toma cuidado não te corrompa. Não julgues ao de leve as acções dos outros. Louva pouco e censura ainda menos. Lembra-te de que para bem julgar os homens é preciso sondar as consciências e perscrutar as intenções. Se alguém tiver necessidade, socorre-o, se se desviar da virtude, chama-o a ela, se vacilar, ampara-o, se cair levanta-o. Respeita o viajante, auxilia-o; a sua pessoa é sagrada pára ti. Foge a contendas, evita os insultos, obedece sempre à razão esclarecida pela ciência. Lê, aproveita, vê e limita o que é bom, reflecte e trabalha. Faz quanto possas para o aperfeiçoamento da organização social, e assim contribuirás para o bem colectivo. Sê progressivo, estuda a ciência porque ela te conduzirá à verdade que tens por dever procurar. Não te envergonhes de confessar os teus erros. Provarás assim, que és hoje mais sensato do que eras ontem e que desejas aperfeiçoar-te. Moraliza pelo exemplo, sê obsequioso, tolera todas as crenças e todos os cultos, mas tem por dever lutar contra a superstição, o fanatismo e a reacção, como os mais resistentes obstáculos ao progresso humano. Educa e ensina, esclarece os outros com o teu conselho, inspirado pela circunspecção e pela benevolência. Regozija-te com a justiça, insurge-te contra a iniquidade: sofre os azares da sorte mas luta contra eles no intuito de os vencer. Procede sempre de forma que a razão fique do teu lado. Respeita a mulher, não abuses nunca da sua fraqueza, defende a sua inocência e a sua honra. Ama a Pátria e a Liberdade. Sê bom pai, bom filho, bom irmão e bom amigo. Quando fores pai, alegra-te, mas compreende a importância da tua missão. Sê um protector fiel do teu filho. Faz com que até aos dez anos te obedeça, até aos vinte te ame e até à morte te respeite. Até aos dez anos sê seu mestre, até aos vinte seu pai e até à morte seu amigo. Ensina-lhe bons princípios de preferência a belas maneiras; que te deva uma rectidão esclarecida e não uma frívola elegância. Fá-lo um homem honesto de preferência a um homem astuto.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Sou de esquerda...

Com a marca de verdade derradeira e universal tem sido inculcada, de um modo sobremaneira crasso, a ideia da relatividade das concepções do mundo e das opções políticas. Direita e esquerda seriam escolhas tão inó­cuas e indolores como a pertença a um clube desportivo ou colectividade de bairro, questão de colorido, proximidade de vizinhança. A tese não é nova e ressalta sempre que haja conveniência e oportunidade. Repete-a agora, até à náusea, inserida num esquema aprendido mais ou menos de cor, de mistura com um rol de trivialidades, um conjunto de criatu­ras formatadas, que lembram a expressão de Manuel da Fonseca "jovens velhinhos". Campeia por aí um coro de adolescentes iletrados, possessos de Adam Smith, que li­sonjeiam os patrões ("criadores de riqueza") por julgarem que a vida tem de ser mesmo assim. De há uns tempos para cá, instalou-se este fenómeno deprimente do jornalismo de libré. Estabeleceu-se uma espécie de tirania da frase em que toda a gente se sente vinculada a repetir as mesmíssimas coisas. A direita é precisamente quem tem interesse em que se mantenha a indiferenciação. Joga na indistinção. Sente-se absolvida, desimpedida e desenfiada. Um facto encobre e justifica o outro. As chacinas nazis na Segunda Grande Guerra, por exemplo, teriam equivalência nos bombardeamentos maciços dos aliados em território alemão, Auschwitz, no Gulag. Todos quites. Tudo igual. Há muitas outras equiparações do género, complementadas com a ideia cínica de que são os vencedo­res que escrevem a História, e, no fundo, revolução e contra-revolução, miguelismo e liberalismo, inquisição e Reforma, fascismo e comunismo, democracia e ditadura, cabe tudo no mesmo saco. O homem seria por natureza desesperadamente ruim, e a história aí estaria a demonstrar que não há nada melhor que um bom capitalista.
Em boa verdade, usamos “esquerda” e “di­reita” por comodidade de conversação. Hoje pouco importa a disposição na topografia da Assembleia Constituinte de 1789 ou o voto sobre a decapitação do rei. Entre as noções, há turbulências de fronteira, e, dentro delas, equívocos, contradições, paradoxos. Fora dum contexto é sempre difícil dizer se tal ou tal medida isolada é “de direita” ou “de esquerda”. Em muitas situações a qualificação das políticas torna-se tremida ou incómoda. A questão parece resolvida quando se opta por uma explicação simples e reveladora: a luta de classes, por exemplo. Tudo o que favorecesse, em maior ou menor grau, as posições da classe operária e dos seus aliados, na gigan­tesca tarefa de transformação revolucionária, seria de esquerda. Tudo o que a contrariasse seria de direita. Mas o critério dos interesses da classe operária não resistiu à prova do pudim, que segundo um velho provérbio inglês, muito citado por Marx e Engels, consiste em que se come. São comprováveis antagonismos de classe, desde os mais remotos tempos históricos. Os confli­tos sociais da república romana pela posse da terra, em que os posicionamentos de classe, a avaliar pelo que relatam os especialistas, eram duma clareza paradigmática, não deixam de ser interessantes. Mas a teoria da luta de classes não resolve a destrinça entre esquerda e direita, nem creio que a distinção se opere no campo dos abstractos e hipotéticos interesses sociais. Procurar hoje saber se a conspiração de Catilina era, avant Ia lettre, de direita ou de esquerda, progressista ou reaccionária, é um absurdo escolástico muito próprio de algu­mas infindáveis discussões dos anos sessenta do século XX. Se aplicarmos os critérios à contemporaneidade, também surgem imedia­tamente as perguntas incómodas e arrasadoras. Os Pol-Pot, os Ceauscscu, os Kim il Sun, e por aí fora. Às tantas estamos num enredo ptolemaico de explicações, contra-explicações e explicações das explicações.
Por outro lado, uma identificação pelo lado luminoso da ética, ou pelos bons sentimentos, não parece levar muito longe. Nos meios que frequento, tende-se a identificar a esquerda com aquele conjunto de atitudes e comportamentos que cabem sob a genérica designação inglesa de fair-play, originária, aliás, de am­bientes que de esquerda nada tinham. Aqui há uns anos, com poucas excepções, as opiniões literárias de pessoas consideradas de direita excluíam os autores portugueses, apenas por eles terem fama de «ideias avançadas», como então ridiculamente se dizia. O sectarismo de direita sempre foi, de uma forma geral, mais feroz, descarado e prepotente que o de es­querda. Mas não se pode negar que há excep­ções: em gente assumida e tradicionalmente de direita também existe, por vezes, um forte apego à decência e mesmo uma preocupação de justiça merecedoras de nota. Adiante vol­tarei a este particular.
Ultimamente, têm-se visto pessoas meritórias, de trato civilizado, reconhecida rectidão e provados sentimentos democráticos a alinhar em abonações a um Presidente americano do Texas, primitivo, ultra-reaccionário, muito próximo da sua própria caricatura, e que vem sendo, pelo comportamento e visão do mundo, a negação da própria inspiração fundadora dos Estados Unidos. Este americanismo básico, de muito boa boca, pronto a tudo, faz lembrar o pró-sovietismo acrílico doutros tempos.
Chega a avalizar a violência cega, a mentira e a tortura e alinhar num irracionalismo de bandeira completamente alheio a princípios. Confundir George W. Bush, aquela manifesta incompetência e postura fachista, com os Estados Unidos é uma agressão ao próprio povo americano e a todos os que gostam da América. A resistência à política imperial de Bush e da mal recomendada trupe que ocupa hoje o poder na América é uma homenagem àquilo que há de melhor nos Estados Unidos. Não é antiamericanismo. E o contrário disso.
Eu não confundiria a deriva desta gente respei­tável com uma moda direitista que anda por aí à desfilada e que é muito semelhante àquilo a que em tempos se chamou, do lado contrário, a “esquerda festiva”. Agora é a direita festiva. Bebem-se uns copos, escrevem-se umas “artigalhadas”, confraterniza-se, e está-se pronto para o lance seguinte, que pode ser de roupa­gem direitista ou não, conforme assoprarem os ventos do tempo. Em casos mais lamentá­veis, são manifestas a lavagem do cérebro, a hipnose pela propaganda, ou, eventualmente, motivações ainda menos desculpáveis. Mas também aparece aqui e além um ressentimento desiludido contra a esquerda, em alguns casos merecedor de compreensão.
Tem de se admitir que o folclore da esquerda está repleto de tolices, de inverdades e de estereótipos irritantes. Isto à revelia do livre exame e do exercício da crítica que, a meu ver, são, precisamente, o ponto forte da esquerda. Há, na área, quem reaja por reflexos condi­cionados ou não seja capaz de mais do que seguir uma cartilha, ou um catálogo prefixo de comportamentos. Um pouco como nos pro­sélitos da propaganda americana, dizem o que esperam que digam, e respondem com “ideias de esquerda” ou “concepções de esquerda” prontas a sair. O problema é que, não sendo sempre possível chegar à verdade (os antigos figuravam-na no fundo de um poço) o pen­samento de esquerda caracteriza-se por não aceitar mentiras. A partir do momento em que se mente, tudo isto deixa de valer a pena.
Estou a lembrar-me da fábula do homem primitivo, em comunhão com a natureza, a deliberar democraticamente à sombra de uma árvore frondosa, desconhecendo a escravatura e a guerra, vivendo em bucólica harmonia. Isto contrasta com os relatos - que não há razão nenhuma para supormos inventados - que falam de chacinas constantes, de crânios empilhados em pirâmide, de rituais de antro­pofagia. A condenação do colonialismo não obriga à ocultação da hediondez do mundo que os europeus foram encontrar.
Agora insiste-se em fazer derivar o terrorismo de condições sociais degradadas que o pro­duziriam, numa relação de causa e efeito. Ou como contrapartida da arrogância ocidental, numa espécie de “excesso de legítima de­fesa”, como diriam os juristas, de boa gente desinquietada pelo imperialismo ianque. Isto é falso e perigoso. E desistir de todas as tentativas, não digo para compreender, mas para enfrentar o mundo de hoje e as ameaças que impendem sobre a Humanidade. Ora trata-se de uma coisa diferente, que não vem mapeada nos manuais nem nos catálogos. E o atraso, é o primitivismo, é uma vandalização em grande escala, é o fanatismo, é o Mal. Nós, ditos oci­dentais, não temos culpa de que exista o Mal.
Este masoquismo auto-sacrificial em que se comprazem os nossos contemporâneos, como se fossem culpados da História (e os outros não), representa uma demissão face à ameaça e uma submissão à mentira que obviamente incomodam a gente mais atenta e municiam a argumentação da direita.
E é preciso admitir, por outro lado, que a esquerda também transporta muitas misérias. Todas as chamadas utopias falharam, umas caricatamente, nas bem intencionadas experi­ências oitocentistas, outras tragicamente, nos chamados socialismos reais, com a implan­tação do terror, da miséria e da humilhação, sobre populações inteiras. É um lastro sinistro. Uma posição minimamente honesta não pode ignorar os milhões de mortos provocados pelos estalinismos, pelos maoismos e por engenharias sociais totalitárias. É perfeita­mente descabido e ofensivo para as vítimas entrar na guerra dos números e discutir a prioridade macabra de quem é que matou mais, se a esquerda se a direita. Acho que, pura e simplesmente, não se matam pessoas. E este é um dos princípios que me recuso sequer a discutir.
Sinto-me revoltado, até pela minha própria ingenuidade em certo período. De pouco me serve reconhecer que não houve, até agora, obra humana, por mais generosa, que não tenha sido desde logo impregnada pelo mal. Atentem os cristãos nos crimes e homicídios que pontuaram toda a história da Igreja. É a inquisição a essência do catolicismo romano? E desculpável? Quando ouço um católico a justificar a Inquisição com os argumentos da época ou da pressão do poder real, penso sempre: “Este estava prontinho para outra”. E quando ouço alguém a minimizar os horrores do estalinismo, ocorre-me logo: “o que é que este me faria a mim?”
É preciso assumir claramente estas misérias, sem nenhuma espécie de ambiguidade ou falácia. A esquerda também tem este horrendo contrapeso.
Os homens têm evoluído contra o que é natural e são sistematicamente traídos pela emergên­cia do natural. O natural é o medo, a humilha­ção e sobretudo, a morte. O totalitarismo e a opressão são naturais. O estado democrático não é natural. O chamado modelo social europeu não é natural. Implicou um tremendo esforço de construção e de racionalização e a superação difícil, sempre problemática, fase após fase, do egoísmo primitivo e de certas relações de submissão.
A primeira vista, hoje partilhamos todos os mesmos princípios e concordamos nos mesmos pontos essenciais. Somos todos civilizados. Os tempos são aparentemente de apaziguamento e de indulgência recíproca. Mas será mesmo assim? Como é, quando chegam os momentos decisivos? O que acon­tecerá quando houver um desequilíbrio, uma ruptura? Contra que é que a direita se tem batido? A direita esteve contra o sufrágio uni­versal, contra a liberdade de imprensa, contra a escola laica, contra a liberdade de expressão, contra a liberdade de manifestação, contra o livre-pensamento, contra o divórcio, contra a igualdade das mulheres, contra o preserva­tivo, contra a pílula, contra a descolonização, contra o abolicionismo, contra o fim da pena de morte, contra os sindicatos, contra o movi­mento operário, em suma, contra tudo o que assinalava, de uma forma ou doutra, progresso e bem-estar.
Em Portugal a direita assume os dias hedion­dos do miguelismo, a postura retrógrada da hierarquia católica durante todo o século XIX, os cinquenta anos de fascismo, a miséria, o atraso, a violência, o analfabetismo. É o lado negro e torpe da nossa História recente. E isto para não ir mais para trás e para não abusar das esquerdas/direitas, antes delas terem sido usadas na acepção progresso/reacção.
Passando pelos direitismos circunstanciais, em que falei acima, voláteis e transitórios, estou profundamente convencido de que para a direita há uma espécie de pólo de atracção, uma querença primitiva e ancestral, a apontar para a exploração, a violência e a humilhação dos outros. Há a preservação titular ou lacaia de um núcleo de interesses, a que a ideia de bem comum é estranha. Há a aposta, por sis­tema, no preconceito, ainda que isso implique a mentira e a mistificação.
Vêm-me logo à memória a polémica “Eu e o Clero”, o “caso Dreyfus”, o governo traidor de Vichy.
Aquilo que na esquerda é uma perversão, um abismo, na direita é um rumo e uma com­ponente estruturante. A direita carrega a sua própria natureza, a esquerda tem muitas vezes de suportar o fardo da natureza do Outro. Nas situações limite, na hora da verdade, as coisas clarificam-se.
Por isso é que me é difícil evitar um sobres­salto de estranheza quando ouço alguém, que respeito ou estimo, dizer, a qualquer propósito, que é de direita. Parece-me sempre a incómoda confissão de uma anomalia, como se essa pes­soa estivesse a despojar-se de si, a ostentar defeitos, deformidades, mazelas, com um exi­bicionismo de pobre de província de outrora, em vez de os sepultar no imo, sem bafejos de luz, nem exibições irremediáveis. Há relances dum rasgar as roupas, dum suspender-se do pelourinho, dum bater cavo no peito, duma humilhação de rojar o pó, que desconcertam na altura em que nos pomos a julgar. Fica su­bliminar, indefinida e pesada, uma compaixão muito condoída, uma tristeza pelo outro, uma vontade de não ter presenciado, de ter ouvido ou lido mal, de que ele tivesse dito antes uma outra coisa. Fui formado num sistema de re­jeições e desprezos que dispõe e hierarquiza valores que não aceitam sem rebate ou dó as personificações infernais.
Há algumas pessoas estimáveis (por razões não apenas do coração) que se prestam a esta identificação, com um despacho nem sempre desprovido de candura. Apetece-me desmenti-las, autoritariamente: “não, você não pode ser de direita, você é um poço de decência, não pode dizer uma coisa dessas”.
E a estima fica, apesar de tudo, intacta. Eu posso dar-me ao luxo do fair-play. Sou de esquerda…