domingo, 3 de agosto de 2008

INTERROMPER AS FÉRIAS PARA QUÊ?



Quando já nos estávamos a esquecer de um passado recente em que um nosso Primeiro Ministro nos habituou com os seus “tabus”, não é que paira no ar um alvoroço na imprensa que, como não poderia deixar de ser, logo se aproveitou para aumentar a publicidade no “horário nobre” porque o então Primeiro Ministro, agora na condição de Presidente de todos os portugueses, acaba de interromper as férias para falar aos portugueses e que logo se especulava ser “caso importante” porque segundo o seu assessor “não iria intervir se não o fosse.

Bem, logo pensei, está indignado com o descalabro a que isto chegou. A corrupção já institucionalizada e aqui uma ressalva para a ASAI. O desemprego, os baixos salários e pensões de quem deu uma vida de trabalho em contraponto com as escandalosas dos Gestores Públicos, Deputados e outros tais, com “meia dúzia” de anos de passagem pelos cargos. Os abusos da GALP e os chorudos lucros que o estado tem em cima destes abusos. Os grandes lucros da Telecom. Os 700 milhões de Euros de dividendos líquidos da EDP, quando a Entidade Reguladora, que ainda não percebeu ao serviço de quem deve estar, até propõe que, as dívidas incobráveis dos consumidores caloteiros sejam imputadas aos consumidores cumpridores e porque não aos “gestores”?, que são pagos principescamente e que irão certamente ser premiados por não conseguirem cobrar e para o maior dos descaramentos, ainda querem aumentar as tarifas, argumentando estarem abaixo dos valores que deveriam ser cobrados. É preciso ter muita lata porque vergonha é coisa que eles já não têm há muito. E ainda (aqui fez-me lembrar a “bota botilde”), as Leis do Trabalho em que os trabalhadores só têm deveres porque os direitos são dos patrões que até têm o direito de os “escravizar”. Tudo em nome da Crise que, como não poderia deixar de ser, é só para alguns que, por acaso, são a maioria. A impunidade dos Bancos e seus offshore e uma longa lista de injustiças que dariam kilometros de linhas.

E eis que depois de todo este suspense em que o Zé Povinho já esfregava as mãos de contente “até que enfim o nosso Presidente vem tomar as nossas dores”, lhe cai em cima um “balde de água fria”. O que ele vinha, era fazer queixa da forma como estava a ser tratado pelo Parlamento Açoriano e pelo PS. Na Madeira até lhe podiam chamar o “Sr. Silva”, ou recusarem recebe-lo no Parlamento que estaria tudo bem mas, problemas domésticos, da familia politica, não são para aqui chamados. O que é para aqui chamado, é que a maioria dos portugueses, para além de acharem uma intervenção inoportuna, não entenderam absolutamente nada e muito menos que tenha feito o sacrifício de interromper as férias. É fruto da nossa ignorância, do ensino que temos, ou por outra, que não temos.

Os portugueses esperam mais do seu Presidente e não estão preocupados se os Parlamentos lhe dão ou tiram poderes. Isso é um problema que tem de ser resolvido nas estâncias próprias com o patrocínio do Tribunal Constitucional.

Um Povo empenhado e hipotecado, uma juventude sem previsões de futuro querem ouvi-lo falar do estado lastimável em que chegou a Justiça, o Ensino e a Saúde (dignas de um país de terceiro mundo), e também dos processos escandalosos dos Apitos de várias cores, Casas Pias, Pintos da Costa e outros impunes que se arrastam, sem fim à vista. Que lhe seja explicado o verdadeiro interesse e de quem, das obras megalómanas de um Governo com mentalidade de novo-riquismo, como o TGV, Aeroportos e travessias, até agora tão mal explicadas.

Os portugueses entendem e até agradecem as suas boas intenções mas todo este alvoroço, como diria o Herman, “não havia necessidade”.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O novo fascismo

"O velho fascismo, por mais actual e poderoso que seja em muitos países, não é o novo problema actual. Estão a preparar-nos outros fascismos. Está a instalar-se um amplo neofascismo relativamente ao qual o antigo fascismo parece folclore. O neofascismo, em vez de ser uma política e uma economia de guerra, é uma aliança mundial, em prol da segurança, em prol da gestão de uma "paz" não menos terrível... Não se vê aqui um plano de conjunto que estabeleça as suas modalidades de aplicação, não se vê um agente particular que seja o instigador, não se vê um texto fundador que enuncie a doutrina geral, não se vê uma conspiração. Vê-se apenas um conjunto de vontades particulares que se juntam, se adicionam e se reforçam, acabando por constituir um regime autoritário difuso, cujo centro está em todo o lado e cuja circunferência não está em lado nenhum... Um regime que assim apresenta, a quem deseje derrubá-lo, bem poucos sítios por onde o agarrar..."



Gilles Deleuze, Deux régimes de fous, Minuit, Paris, 2003