sexta-feira, 22 de maio de 2009

Uma lição de Democracia...

Aos poucos, fui-me também impregnando da cultura política profundamente democrática daquele país: lia os jornais todos os dias, via a televisão todas as noites, assisti a numerosos debates na Câmara dos Comuns, fui ver alguns julgamentos no Old Bailey, comprei livros e revistas, ouvi várias vezes deliciado os debates populares do "speaker's corner"em Hyde Park. Foi aqui que um dia recebi a primeira grande lição de democracia da minha vida. Tinha então 17 anos. Era um Sábado de manhã, estava um dia lindo de Setembro. No local onde tradicionalmente discursam com toda a liberdade aqueles que sentem a necessidade de se exprimir em público, estavam três oradores: um falava de política, outro dissertava sobre arte, e o terceiro afirmava ser Jesus Cristo e ter voltado à Terra para esclarecer melhor a sua mensa­gem... Aproximei-me do primeiro. Estava a criticar tudo e todos - o Primeiro-Ministro, o líder da oposição, os dois maiores partidos, etc. A dada altura concentrou os seus ataques na Rainha. O público começou a res­ponder e a protestar. Gerou-se alguma polémica.
Nisto, vejo aproxima­rem-se dois polícias. E penso para comigo: "decerto vão intervir; na rea­lidade ele está a exagerar; ao menos que a Rainha seja respeitada". Pois bem: os dois polícias de facto intervêm, mas para meu grande espanto não o fazem para chamar à ordem o orador; viram-se para a assistência e dizem bem alto: "silêncio, por favor; deixem o orador exprimir-se livre­mente; ele tem o direito de dizer o que quiser". Fiquei pasmado - eu que estava habituado em Portugal a ver a polícia proteger os governantes, acabava de assistir a uma intervenção da polícia para proteger o direito de os cidadãos criticarem os governantes... Havia de facto uma grande diferença entre viver em ditadura e viver em democracia!
E, de repente, foi todo um mundo que se abriu diante dos meus olhos - o mundo da liberdade, dos direitos fundamentais, do debate das ideias, das eleições livres, da alternância entre esquerda e direita no poder, da televisão independente do Governo, do parlamentarismo, da justiça rápida e prestigiada, da polícia respeitadora dos direitos indivi­duais e proibida de usar meios violentos, etc, etc. E tudo isto sem que o regime se afundasse na desordem, e sem que o perigo do comunismo ameaçasse a ordem social estabelecida. Desde esse tempo, tornou-se para mim evidente que a forma mais eficaz de combater a ameaça comunista não era, como nos diziam em Portugal, um regime autoritário de direita, mas uma democracia pluralista em que a esquerda e a direita democráticas se alternassem no Poder conforme o veredicto das urnas.

O cristianismo, assim vivido, não precisava de inspiração socialista para significar comprometimento sincero na "promoção da solidariedade humana e da justiça social. Talvez por isso, nunca me julguei menos em­penhado do que os meus colegas de esquerda na construção de um mundo melhor - mais livre, mais justo e mais fraterno -, e nunca tive de ir buscar apoio teórico ao socialismo para agir com tais objectivos. Mas também nunca aceitei - nem era essa a lição familiar - um capitalismo desumano, assente nos privilégios do nascimento ou da riqueza, e insta­lado na estúpida convicção da superioridade moral ou genética dos "happy few" sobre os desfavorecidos da fortuna. Antes de me tornar conscientemente "democrata-cristão" por ideologia, já o era afinal por osmose familiar, e por um "solidarismo humanista" muito próprio dos meios rurais minhotos.
in "O Antigo Regime e a Revolução - Memórias Políticas (1941-1975) - Diogo Freitas do Amaral"